A Bienal do Livro de Salvador durou de 17 a 26 de abril, tendo fluxo crescente de visitantes que culminou em evento lotado no seu último dia. Ainda assim, as promoções de livros, um dos principais atrativos para o público, decepcionaram. Barato encontravam-se apenas livros antigos em sebos, alguns poucos títulos acadêmicos e histórias em quadrinhos. Aliás, a nona arte, como são chamados os quadrinhos, estiveram em alta no último domingo da Bienal: na Arena Jovem aconteceu um bate-papo sobre quadrinhos com o tema “A explosão dos quadrinhos”.
O bate-papo teve como convidados os quadrinhistas baianos Flávio Luiz, Cedraz e Rezende, além do roteirista francês Benoît Peeters. Na platéia, artistas baianos como André Leal e Betonnasi.
Um dos temas mais discutidos pelos artistas foi a identidade do quadrinho nacional. Cedraz, criador da turminha do Xaxado, contou o quanto foi criticado, no início da carreira de seu principal personagem. O personagem Xaxado é baiano e vive aventuras regionais, o que levava os editores das tirinhas a não acreditarem no alcance do trabalho. No entanto, o personagem obteve sucesso e Cedraz defendeu o encorajamento das iniciativas que buscam resgatar uma identidade regional em detrimento de produções espelhadas no mercado exterior de quadrinhos, a exemplo das HQs de super-heróis. Flávio Luiz, criador do rentável álbum Aú, O Capoeirista, distanciou-se da proposta de Cedraz, recomendando que se deve fazer quadrinhos com o foco na qualidade do material realizado, que poderá ser interessante com ou sem nacionalismos. Rezende, quadrinhista do cenário underground, estimulou o espírito criativo por parte dos quadrinhistas e aspirantes, antenando-se ao cenário de sua época, estabelecendo parcerias e metendo as caras onde puder.
Benoît Peeters, a sensação da noite por ser um roteirista que já trabalhou em grandes editoras, em parceria com desenhistas famosos como o Frédéric Boilet, conhecido no Brasil pelas obras Garotas de Tóquio e O Espinafre de Yukiko. O autor enfatizou a relação entre roteirista e desenhista e deu declarações bastante emocionadas sobre seu trabalho com Boilet. Segundo ele, viajaram juntos pelo Japão por três meses para criação do álbum Love Hôtel. Lá, ele viu com muita atenção o interesse de Boilet pelo país aumentar, a ponto dele se apaixonar pelas garotas japonesas, se casar com uma delas e resolver morar no país. Peeters retornou à França para escrever o roteiro, mas as idéias não vieram de suas anotações genéricas sobre o país e sim das aventuras vividas pelo amigo desenhista, que continuava a lhe contar via cartas. Em meio a seus relatos sobre o trabalho coletivo de criação do roteirista e do desenhista, Peeters proferiu a máxima: “Efetivamente, eu e Boilet deixamos de ser roteirista e desenhista para nos tornarmos um terceiro ser: o quadrinhista”.

A Arena Jovem esteve cheia durante o bate-papo, que durou cerca de duas horas e tem papel fundamental para divulgação dos autores baianos.
A presença dos quadrinhos em um evento voltado à literatura mostra a significativa migração dos quadrinhos, que eram vistos como influenciadores negativos na formação juvenil e não-arte, para o campo de reconhecimento literário. Fenômeno que envolve um risco e um êxito: o êxito tem sido o da expansão dos nichos temáticos dos quadrinhos, que hoje possuem material para públicos bem diversos e que é vendido nas livrarias, sinal de status e amadurecimento de público; o risco é a ameaça à autonomia do quadrinho enquanto arte autônoma, mantendo ela sempre subjugada à literatura e o desenhista apequenado no valor da sua ilustração para que o texto do roteirista seja posto à luz dos estudos narrativos e literários.
Se haverá mais ou menos êxito em termos artísticos é algo que desabrochará nos próximos anos. O que podemos dizer, e com muito orgulho diremos, é que a fase do quadrinho enquanto “coisa de criança” está vivendo seu “canto do cisne” – negro, diga-se de passagem.
texto por Marcelo Oliveira fotos e vídeos por Marcel Ayres
Texto publicado originalmente no site da Revista Circuitos
Escrito por Marcelo Oliveira 






