Forma versus conteúdo: um improvável confronto entre Literatura e Quadrinhos

há distinção entre texto (supostamente o conteúdo) e imagem (supostamente a forma)?

Quadrinhos: há distinção entre texto (supostamente o conteúdo) e imagem (supostamente a forma)?

Sandman foi aclamado como um quadrinho para intelectuais e Neil Gaiman, seu criador, elogiado por suas capacidades literárias. Os elogiadores esquecem que quadrinhos não são um subgênero literário como o romance ou o conto. O quadrinho é uma arte autônoma – até onde se é possível separar uma arte da outra nos tempos atuais.

Analisando a nomeação do Sandman como “ascendente às esferas literárias”, parto para a divisão vista nos quadrinhos: texto e imagem. Os textos de Gaiman são ditos literários e capazes de uma narração surpreendente. As imagens, menos comentadas que os textos, são tidas por muitos dos críticos da obra como responsáveis pelo clima de terror. A inserção do texto de Gaiman no paradigma do “bem escrito” e do “bom contador de histórias” opõe-se aos desenhos que operam apenas para complementar o conteúdo das histórias. Servem apenas para dar forma ao escrito por Gaiman.

Nesse sentido, os críticos têm se resguardado à tradicional visão de que repousa na Literatura o dom de narrar boas histórias. Transpondo-se aos quadrinhos, esse conceito conforma a crença de que no roteiro (literário) residiria o conteúdo narrativo, enquanto que nos desenhos, estaria a forma que apresenta o conteúdo. Uma idéia bastante frágil, mas que ainda domina a maneira como os quadrinhos são encarados e que cria um conflito binário bizarro entre forma (como sendo os quadrinhos) x conteúdo (representado pelo roteiro dos quadrinhos, mas tendo sua representação máxima, neste caso específico, na Literatura).

A divisão em forma e conteúdo vem sofrendo críticas há muito tempo, dos formalistas russos aos teóricos da formatividade da arte. É cada vez mais concordante, entre os acadêmicos, que muitas vezes o suposto conteúdo da mensagem só significa algo a depender da maneira como a forma o modula. Em Sandman, não importa apenas a descrição alto-astral que Gaiman faz da Morte, como também cada acessório que reveste seu corpo e a maneira como arruma os cabelos. A Morte se porta como uma cantora gótica dos anos 80, mas com um lado punk bastante vívido, informações não contidas em seus textos de descrição pela HQ, mas que se configuram também como conteúdo. Nesse aspecto, não se pode esquecer que cada recordatório (caixinha de texto) possui diagramação e colorização própria em Sandman, o que dá forma a cada um dos textos escritos.

Portanto, os quadrinhos da série Sandman não devem ser vistos como literários, pois não são puro conteúdo e forma escritas. O desenho é diferente da escrita e possui seus conteúdos e formas. E conteúdo e forma, não importa em qual arte seja, encontram-se miscigenados e imiscíveis. Note, por exemplo, a sensação que temos ao escutar a música como Smells Like Teen Spirit na versão original cantada pelo Nirvana e na versão da inglesa Tori Amos: é apenas a forma que muda, ou os sentimentos que afloram na audição são outros? Creio que conteúdo e forma mudam igualmente.

Por fim, é bom perceber que não é dom exclusivo ou supremo da Literatura o de contar histórias. Quadrinhos, cinema e quaisquer outras artes podem fazer isso com igual competência. O reconhecimento literário da obra Sandman é bastante importante exatamente por validar esta competência narrativa, e só. Quadrinhos e Literatura são artes, por igual, mas que possuem contornos diferentes. Sem oposições, sem necessidade de dicotomias baratas.

10 respostas para Forma versus conteúdo: um improvável confronto entre Literatura e Quadrinhos

  1. Claro, quadrinho e literatura são artes diferentes, de fato. Trabalham com linguagens que não são, de forma alguma, similares. Seria o mesmo que entender o cinema como diferente da literatura. E, inclusive, todos esses três meios contam histórias. Este “contar histórias”, portanto, não é exclusividade da escrita literária.

  2. Marcelo Oliveira disse:

    Caro Leo,

    Creio que as linguagens têm algo de similares sim. Tanto que muitas vezes é difícil diferenciar o que é Literatura do que é Quadrinho do que é Animação do que é Cinema. Muita coisa está se fundindo, se comendo, se afastando e nossas crenças em qualquer coisa estável pode ser frustrante demais.

    Mas contar histórias, creio (minha crença), vale pra qualquer arte e/ou diálogo.

  3. Paulo Rená disse:

    como confundir animação e quadrinhos? Ou cinema e literatura? São distintos. A narrativa, como disse o Leonardo, perpassa tudo isso, mas não as confunde. Se você pensar bem, um telejornal tem narrativa. Mas não é literatura.

  4. […] Visto no Roteirizando HQ […]

  5. […] outro post, sobre Sandman, uma análise da representação dos personagens é bastante interessante,  enquanto critica a oposição rasa entre conteúdo e forma. O autor […]

  6. viviane disse:

    gostaria de saber se em Sergipe tem algum lugar que venda SANDMAN?
    ACHEI MUITO INTERESSANTE O POUCO QUE CONHEÇO SOBRE , E GOSTARIA DE SABER MAIS!!!!!!!!!!!

  7. Marcelo Oliveira disse:

    Viviane,

    Os títulos da saga original de Sandman são vendidos em livraria. Você pode achar as obras por duas editoras: A Conrad, que editou toda a série original em livros de capa dura, mas que infelizmente tem os dois primeiros livros esgotados; e a Pixel,que editou o primeiro volume em duas partes, com cores refeitas. Nas livrarias, você também encontra especiais do Sandman, como Noites sem fim e Caçadores de Sonhos. Não havendo esses livros em sua cidade, procure em lojas virtuais e em sites como Mercado Livre. Vá atrás mesmo, Sandman vale muito a pena =)

  8. Amago disse:

    Eu discordo, ao ponto que tanto quadrinhos quanto livros tem um objetivo em comum, passar a historia ou conto ao leitor, e pessoalmente vejo uma rivalidade na obra de qualquer um entre arte plástica e arte literária… tanto que como muitos de vocês já devem ter tido em mãos obras extremamente bem desenhadas, coisas de realmente fazer parar para apreciar contudo com uma historia tão pobre que faz o quadrinho se esquecer na estante!! Eu realmente acho que não se deve fazer essa divisão entre arte literaria nos quadrinhos, Sandman foi apenas uma nova forma narrativa sem menosprezar as outras, é só uma questão de gosto pessoal… começando pelo fato que… Sandman não é como Xman ou outros tão comuns quadrinhos de ação, suas necessidades são diferenciadas… e note que a aparencia não é algo mal feito, é intencionalmente meio rustico e disforme…

  9. Rafael disse:

    Legal teu post. Meu amigo escreveu sobre a estreia do Gaiman na Marvel no nosso blog. Entra lá e comenta: http://fantasticocenario.wordpress.com/2010/01/06/1602-a-estreia-de-neil-gaiman-na-marvel/

  10. Alessandro disse:

    Quadrinhos é ou não literatura? Eis a questão que tem seu surgimento na pós modernidade. No caso de Sandman, a resposta é dífícil de ser respondida. Vamos começar pelos elementos essencias das hq: em Sandman temos os tradicionais balões, a arte sequencial,as caixas de texto e outros elementos. No entanto,a estrutura narrativa de Sandman é intricada e pode ser dizer intrigante. Para desenvolve-la, Gaiman utilizou-se de vários recursos que podem ser encontrados na literatura. Dentre eles, destaco a intertextualidade literária (que o autor utiliza de maneira sofisticada e até mesmo lúdica, uma vez que algumas referências não são encontradas a primeira vista), a utilização de flashbacks,justaposição de gêneros e linguagens,(na qual há predomino da visual) um recurso muito usado pelos chamados autores pós-modernistas. Assim, Sandman apresenta uma estrutura narrativa constituída por histórias que podem ser lidas separadamente. Além disso, além demandar tempo também pode sucitar o leitor a questionamentos, até mesmo filosóficos. Portanto, apesar de ser uma hq está longe de ser convencional, pois foge de padrões pré estabelecidos. Portanto fica aí a pergunta: se Sandman tem caracteristícas que a tornam uma história tão complexa quanto outros clássicos do gênero tais como O Senhor dos Aneis ou Harry Porter, por que não pode ser considerada literatura?

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