Artigo de análise da Turma da Mônica Jovem

25/03/2009

Resolvi postar um artigo de análise do primeiro número da Turma da Mônica Jovem. O artigo foi orientado pela professora Janira Borba e foi resultado dos nossos estudos sobre mídia, representações sociais e identidades culturais, na disciplina Comunicação e Atualidade I do curso de Comunicação da Universidade Federal da Bahia. Abaixo está o resumo do artigo. Para lê-lo na íntegra, clique aqui.

Resumo

O presente trabalho analisa a representação da juventude na edição #1 dos quadrinhos mensais da Turma da Mônica Jovem. O artigo discorre primeiramente sobre questões históricas e teóricas dos quadrinhos, com especial ênfase no estilo mangá, sobretudo no Brasil. Em seguida, são abordadas questões relativas às representações e à juventude, em interseção com aspectos identitários. Por fim, o trabalho procede à análise a que se propõe, da qual conclui que a representação da juventude nessa HQ evoca normas que remetem a uma juventude hegemônica e contribui para a manutenção de estereótipos e relações de poder, sem, contudo, deixar de suscitar questionamentos interessantes e apresentar identidades fragmentadas.

Palavras-chave

Representação – Juventude – Quadrinhos – Mangá – Turma da Mônica

Vá para o artigo!

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Semeando Lucas da Feira I – Conversa com Jairo Cedraz e Clóvis Ramaiana

21/03/2009

Lucas da Feira – nem bandido, nem herói

Como dito num post passado, inicio agora o diário de bordo sobre as reflexões na construção do quadrinho Lucas da Feira. Eu e Marcos Franco demos os primeiros passos na coleta de informações sobre a história do “demônio negro”. Na verdade, foram os meus primeiros passos, uma vez que Marcos pesquisa há mais de 10 anos sobre o assunto.

Conversamos com o arquiteto Jairo Cedraz e o professor universitário Clóvis Ramaiana. Ambos foram bastante atenciosos e nos esclareceram pontos importantes relacionados à razão de Lucas ser, ao mesmo tempo, presente e deslocado na cultura feirense. Falo agora sobre as reflexões construídas naquele dia.

Lucas viveu no século XIX, contemporâneo dos imperadores D.Pedro I e II. O poder político no Brasil era concedido pelo Imperador às câmaras de vereadores locais, e estes recebiam-no como um privilégio pessoal e não como poder público (de fato, não havia uma assistência pública). Os coronéis compravam suas patentes e obtinham cargos “públicos” que beneficiavam apenas a si mesmos. Portanto, a diferença social nesta época era corroborada pela transferência de poder político (além do racismo). Assim, havia homens extremamente poderosos e uma grande maioria de pessoas desamparadas.

Estes homens poderosos ficavam impunes em crimes que cometessem contra a população não-privilegiada. Estupros, extorsões e assassinatos eram praticados com o aval, tácito e silencioso, do Imperador. As roupas que vestiam, trazidas da Europa, emolduravam seus ares de superioridade e caminhavam como deuses que podem tomar o que desejar, assim que quisessem.

A população desprestigiada, além de sofrer os males diretos por parte de alguns desses homens, era desprezada em situações graves como nas primeiras investidas de Lucas. As pessoas sofriam, mas como era gente qualquer, não existia maneira de reivindicar investimento do Império para caça de Lucas.

Lucas entendeu como se comportava sua sociedade e meio político e tirou proveito disso para alcançar uma condição de vida melhor que a dos negros da sua época.

Como explicado acima, os crimes contra a maior parte da população da Vila de Feira de Santana e região circundante passavam impunes porque não eram dirigidas às autoridades políticas. Lucas nunca afrontou um homem de privilégios, por temer uma represália financiada pelo poder imperial.

Há rumores que dizem que Lucas utilizava elementos do vestuário do homem branco, como camisas de algodão, sapatos de couro e chapéu. A apropriação desses itens de representação social por Lucas transferia a imponência, vista no branco, para o homem negro.

As ações “fora-da-lei” de Lucas se igualavam às ações “dentro-da-lei” dos homens de prestígio – estupro, assassinato e extorsões, como eu disse acima. Há pessoas que criticam essa “resposta social”, pois acusam Lucas de abusar da violência física com pessoas inocentes – relatos dos crimes de Lucas revelam agressões cruéis como apregamento de lábios. No entanto, não devemos esquecer que para um “fora-da-lei” a demonstração de violência tem função pedagógica, ensina com quem não se deve mexer. Assim, ele fazia o que o homem branco e poderoso fazia.

Para garantir sua longa carreira como criminoso[1], Lucas ajudava um número de pessoas do povo, em troca de informações e outros tipos de favores. Assim, mesmo sendo odiado pelo povo, tinha seus representantes na Vila, que o avisavam das necessidades de se proteger ou compravam artigos de necessidade, como alimentos.

É notável a organização que Lucas desenvolveu ao seu redor. Ele usou o banditismo como meio de vida e expressão de indignação social numa sociedade que não considerava o negro como homem e perdoava os diversos atos cruéis dos brancos. Mesmo sem haver provas que nos levem a pensar que ele agiu a favor dos negros, sua aquisição de poder lhe confere status de rebeldia e inspiração para os escravos que desejam livrar-se de sua condição.

É notável a organização que Lucas desenvolveu ao seu redor. Ele usou o banditismo como meio de vida e expressão de indignação social numa sociedade que não considerava o negro como homem e perdoava os diversos atos cruéis dos brancos. Mesmo sem haver provas que nos levem a pensar que ele agiu a favor dos negros, sua aquisição de poder lhe confere status de rebeldia e inspiração para os escravos que desejam livrar-se de sua condição.

Acredito que o personagem deve ser retomado, por sua associação simbólica com a cidade de Feira de Santana, seus moradores de hoje e a desintegração da identidade local da cidade. Nos anos 60 e 70 isso foi feito, a faceta rebelde de Lucas foi articulada por cordelistas que resistiam poeticamente às opressões da ditadura. Agora, pretendo, juntamente com Marcos, resgatar para um público maior, feirense, uma história importante na construção do imaginário da cidade – que anda cada vez menos inteligível.

Veja imagens e mais artigos sobre Feira de Santana e Lucas da feira nos links:

https://roteirizandohq.wordpress.com/2009/03/01/o-que-voce-sabe-sobre-lucas-da-feira/

https://roteirizandohq.wordpress.com/2009/02/10/recontando-feira-de-santana-em-quadrinhos/

https://roteirizandohq.wordpress.com/2009/02/17/manu-chao-lucas-da-feira-cultura-lgbt-e-gerundio-novidades-pre-carnaval/

https://roteirizandohq.wordpress.com/2009/02/03/2009-e-os-quadrinhos/

https://roteirizandohq.wordpress.com/2009/01/09/terradeluca/


[1] Os documentos indicam cerca de dez anos de atividade criminosa. Naquela época, seria comum a própria população matá-lo numa emboscada, tão logo que cometesse seus primeiros crimes.


Turma da Mônica Jovem 7 consolida trama de ficção científica

17/03/2009

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Marcelo Cassaro prossegue mantendo a boa qualidade da série, na parte dois do arco O Brilho de um Pulsar! Os pontos de destaque da edição anterior (maturidade dos personagens, ficção científica, narrativa cuidadosa, evolução dos desenhos e diálogos entre Franja e o Astronauta) são desenvolvidos neste número.

Maturidade: Cebola e Mônica continuam mal se falando. Esta crise entre os dois personagens faz com que eles vão percebendo a saudade e aprendendo a tolerância entre si. Ao final da HQ é importante o close no rosto preocupado de Cebola, quando Mônica é teleportada por robôs do Império Karoton. Mesmo sem conversar com a amiga, ele não deixa de colocar de lado suas irritações quando é necessário se preocupar. Similar ao que acontece à Mônica, que releva seus ciúmes por Cebola e Xabéu para ajudar o Pulsar. É notável que a maturidade de Mônica é a que mais evolui, ao contrário de Cebola, o que parece evidenciar a crença de que meninas ‘crescem’ mais rápido que os meninos.
A personagem Usagi Mimi, mesmo sendo antagonista, tem comportamento adolescente e um conflito com o pai, porque deseja se tornar independente dele e obter uma posição de poder de destaque no Império. Esse conflito é retratado ligeiramente, mas parte de uma busca de por maturidade, que diferenças de gerações e a “velocidade” à que a adolescência está submetida, o que acaba por criar jovens prodígios estressados e ansiosos como a princesa.

Ficção Científica: Cassaro alimenta a imaginação dos fãs com informações interessantes sobre o universo que está explorando. Desde detalhes sobre a série Pulsar até os benefícios da gravidade zero para a medicina. Essas referências demonstram a habilidade do autor com a ficção científica, já encontrada em seu romance Espada da Galáxia. Por sinal, o robô da série Pulsar possui personalidade e poder que lembram os metalianos, alienígenas devotos de uma rainha a quem devem honrar e proteger.
A cena de invasão do Império Karoton à estação espacial é digna de um Star Wars ou um Star Trek, com planos majestosos de naves em uma quantidade absurda. Diante da invasão, os personagens não sabem o que fazer, numa impotência bastante sentida pelas expressões dos personagens e imponência dos adversários, principalmente com o holograma gigantesco de Usagi Mimi.

Narrativa: A trama não desanda em momento algum. Começa bem, com a Princesa Usagi Mimi e a partir daí se alterna entre os personagens de uma maneira bem enlaçada. O uso de poucas elipses dá ritmo à história, que acontece num breve período de tempo, abrindo possibilidade para a exploração acurada de cada fato ocorrido até a invasão. Assim, é construída a relação entre Mônica e o Pulsar, a aproximação de Xabéu e Cebola, as intenções de Usagi Mimi com a Terra e as discussões entre Astronauta e Franja, sem perder de vista as cenas de ação que permeiam a HQ.
Como disse Guilherme Kroll Rodrigues, do site Homem Nerd, sobre o trabalho de Cassaro na sexta edição, “a inspiração nos mangás é mais sutil por um lado, mas é constante. As cenas de batalha e a perseverança dos personagens podem encontrar paralelos perfeitos nos gibis japoneses.” A influência japonesa, neste número, está também na menção aos games, ao hentai (sim! eles lêem pornografia!) e no design dos robôs.

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Desenhos: As ilustrações estão mais realistas, sem perder o lado caricato dos mangás de Osamu Tezuka, mas que aparece cada vez menos. Tem sido constante neste arco a utilização de linhas de tensão, aquelas traços na testa dos personagens ou cenários que indicam peso diante de uma situação agravante. Exemplos podem ser vistos no quadro 4 da página 76 e no quadro 2 da página 77 (que ainda utiliza um fundo preto para dar densidade). Assim, Turma da Mônica Jovem está ganhando um estilo mais misturado de desenho, sendo algumas características do mangá influentes nele. Por isso, creio que o “Em estilo mangá!” da capa já está ultrapassado, mas ajuda no marketing da revista.

Franja e Astronauta: Para mim, os dois são os personagens têm a relação mais interessante da HQ. Franja se desilude com seu herói, ao notar que suas ações correspondem ao de sua versão eletrônica nos jogos de videogame. Ao contrário do Astronauta de raciocínio rápido e pacifista da Turma da Mônica original, o encontramos agora estressado e violento. A discordância entre os personagens também funciona como uma crítica à lógica da tecnologia como opressora dos homens: Franja nunca perde de vista que a inteligência humana pode fazer paz ou guerra com a técnica, e ele escolhe a primeira. Na conclusão da parte dois, uma reconciliação acontece, com a união dos dois personagens para imaginar uma maneira de contornar a invasão Karoton. Provavelmente, Franja despontará como herói, igualando o Astronauta.

As ausências de Magali e Cascão ainda se fazem sentir. Magali serve de “orelha” para Mônica e Cascão tem menos participação ainda. Gostaria de ver os fãs dos dois se manifestando!

Preview do Card Game de TMJ. Parece que vai ser bem simples, como os card games do Pokémon da Elma Chips.

Preview do Card Game de TMJ. Parece que vai ser bem simples, como os card games do Pokémon da Elma Chips.

Cassaro está capitaneando bem a Turma da Mônica Jovem, estou tendo prazer em lê-la. Acho apenas que a edição deveria custar menos =P Bem, e uma novidade é anunciada nesta edição: lançamento, em breve, de cards games da TMJ. É aberta, assim, a possibilidade de animes, RPGs e videogames baseados no produto. Isso é bom, creio que TMJ será a porta de entrada para novos RPGistas, jogadores de videogames, etc. Ficarei de olho em como a revista pode estimular outros setores econômicos.

Abraços


O roteirista do meio independente nacional

14/03/2009

Estou sentindo na pele o quanto é difícil fazer quadrinhos no Brasil. Ainda mais se você for roteirista e não souber desenhar, como eu. Em geral, pesquiso e escrevo um roteiro cuidadosamente, entro em contato com desenhistas e espero feedback deles. No entanto, muitas vezes esse retorno nunca vem. Mesmo desestimulado, prossigo na procura de alguém interessado a assumir o posto com os desenhos até terminarmos a HQ. É um processo longo e cansativo. Através de conversas com outros roteiristas sobre o assunto, fui notando como se dá a separação entre o trabalho do roteirista e do desenhista em alguns casos do quadrinho independente nacional.

No texto abaixo não analiso a divulgação e circulação das obras, mas a produção delas.

O roteirista como diretor da ação

A atividade de roteirista envolve a noção de condução, guiamento (por isso, em Portugal é chamado guionista). O roteiro é uma obra escrita com marcas literárias mas, mais especificamente, é uma prescrição de como, neste caso, um quadrinho deve ser desenhado, diagramado e colorido. O roteirista acena aspectos desse quadrinho, que serão desenvolvidos e modificados nas fases desenho, colorização, arte-finalização e leitreramento.

Em projetos mais integrados entre os artistas, o argumento pode ficar por conta de todos os envolvidos. O argumento é um texto que desdobra a concepção inteira da trama/tema a ser narrada. Ainda não está escrita sob forma de roteiro.

Em outros casos, creio que a maioria deles, o roteirista funciona como argumentista. Uma boa parte dos roteiristas do cenário independente brasileiro trabalha assim: tem uma idéia legal, desenvolvem um argumento e em seguida o roteiro e partem atrás de desenhistas afim (ou nem tanto) para desenhar. É aí que reside o problema para muitos roteiristas: convencer um desenhista a perder dias finalizando uma história em quadrinhos.

A argumentação envolve proatividade e lábia por parte do roteirista: ele tem que mostrar como o trabalho será publicado (para isso é bom contar com apoio de um site ou gráfica); apresentar bem os conceitos trabalhados na HQ (é bom ter uma escrita clara e fazer introduções nos roteiros mostrados); se responsabilizar pela divulgação da história (escrever releases, scraps e mostrar que o desenhista vai ser conhecido) e explicar como o desenhista em questão se encaixa no projeto apresentado (se necessário, não se deve poupar elogios). Ajuda bastante se o roteirista tiver conhecimentos de letreiramento e colorização, ou ter alguém pra fazer isso no lugar do desenhista.

Além do contato com o desenhista, o roteirista tem que estar ligado nas notícias do mundo, para entender tendências mercadológicas e artísticas se quiser fazer o personagem ou história funcionarem e serem interessantes para publicação. Só através de muita pesquisa e atenção, o roteirista conseguirá mostrar que sua perspectiva vale a pena ser abraçada e assim fará com que o quadrinho se realize. Não adianta apenas escrever, o roteirista nacional do meio independente tem que saber dirigir sua idéia, ser criador e publicitário dela ao mesmo tempo. Ou seja, a palavra roteiro, ganha uma vastidão semântica.

O desenhista como centro da ação

No entanto, muitas vezes argumentação não adianta e os desenhistas recusam sua oferta. É por isso que ele desponta, no quadrinho nacional, como o centro da ação na produção de muitos bons trabalhos. Sabemos que seu trabalho é mais desgastante, fisicamente, do que o ato de pesquisar e escrever, mas creio que com a configuração atual do papel do roteirista, se torna difícil explicitar quem trabalha mais, se roteirista ou desenhista.

Ainda assim, sem o desenhista não se chega a lugar algum. Muitas vezes o roteirista pode ficar esquecido, mas o responsável pela arte não.

Conclusões

Creio que estes entraves na produção exigem do roteirista um planejamento maior das suas ações e do projeto que desenvolverá. Como fazer um quadrinho exige um tempo de preparação grande, é melhor ter sua idéia refinada ao máximo, para que haja o mínimo de imperfeições e perda de tempo e material criativo.

Esse texto é apenas o começo de um esboço dos meus pensamentos enquanto roteirista. Contribuam discutindo e opinando no blog.

Abraços.


O que você sabe sobre Lucas da Feira?

01/03/2009

Sabemos por algumas pessoas que ele foi ladrão. Outras dizem que não era um verdadeiro criminoso, pois roubava dos ricos para dar aos pobres. Outros só conhecem o seu nome. Outros, nem mesmo possuem informação alguma sobre sua existência.

Os feirenses evocam o nome de Lucas de quando em quando, mesmo que conheçam tão pouco sobre quem estão falando. Isso decorre do fato de Lucas ter se formado mito mais do que personagem histórico. Há inúmeras versões orais sobre a trajetória de vida de Lucas, cada uma com suas próprias datas e personagens, além de uma gama de cordéis, da qual podemos destacar o ABC de Lucas. Os documentos históricos sobre ele são escassos e se encontram no Museu Casa do Sertão, de difícil acesso para a maioria dos visitantes.

É por isso que lanço a pergunta a todos que acessam esse blog, especificamente para os moradores de Feira de Santana: o que você sabe sobre Lucas da Feira? Pode ser qualquer curiosidade acerca dele. Vamos tentar remontar algumas histórias sobre Lucas e ver até onde chegamos perto dos mistérios que o cerca. Essa contribuição se refletirá na construção da obra em quadrinhos sobre o personagem.

Participe comentando ou mandando email para marcelocaterpillar@gmail.com

P.S.: Os próximos posts serão o diário de bordo do processo da pesquisa para o roteiro do quadrinho sobre Lucas da Feira.