O roteirista do meio independente nacional

Estou sentindo na pele o quanto é difícil fazer quadrinhos no Brasil. Ainda mais se você for roteirista e não souber desenhar, como eu. Em geral, pesquiso e escrevo um roteiro cuidadosamente, entro em contato com desenhistas e espero feedback deles. No entanto, muitas vezes esse retorno nunca vem. Mesmo desestimulado, prossigo na procura de alguém interessado a assumir o posto com os desenhos até terminarmos a HQ. É um processo longo e cansativo. Através de conversas com outros roteiristas sobre o assunto, fui notando como se dá a separação entre o trabalho do roteirista e do desenhista em alguns casos do quadrinho independente nacional.

No texto abaixo não analiso a divulgação e circulação das obras, mas a produção delas.

O roteirista como diretor da ação

A atividade de roteirista envolve a noção de condução, guiamento (por isso, em Portugal é chamado guionista). O roteiro é uma obra escrita com marcas literárias mas, mais especificamente, é uma prescrição de como, neste caso, um quadrinho deve ser desenhado, diagramado e colorido. O roteirista acena aspectos desse quadrinho, que serão desenvolvidos e modificados nas fases desenho, colorização, arte-finalização e leitreramento.

Em projetos mais integrados entre os artistas, o argumento pode ficar por conta de todos os envolvidos. O argumento é um texto que desdobra a concepção inteira da trama/tema a ser narrada. Ainda não está escrita sob forma de roteiro.

Em outros casos, creio que a maioria deles, o roteirista funciona como argumentista. Uma boa parte dos roteiristas do cenário independente brasileiro trabalha assim: tem uma idéia legal, desenvolvem um argumento e em seguida o roteiro e partem atrás de desenhistas afim (ou nem tanto) para desenhar. É aí que reside o problema para muitos roteiristas: convencer um desenhista a perder dias finalizando uma história em quadrinhos.

A argumentação envolve proatividade e lábia por parte do roteirista: ele tem que mostrar como o trabalho será publicado (para isso é bom contar com apoio de um site ou gráfica); apresentar bem os conceitos trabalhados na HQ (é bom ter uma escrita clara e fazer introduções nos roteiros mostrados); se responsabilizar pela divulgação da história (escrever releases, scraps e mostrar que o desenhista vai ser conhecido) e explicar como o desenhista em questão se encaixa no projeto apresentado (se necessário, não se deve poupar elogios). Ajuda bastante se o roteirista tiver conhecimentos de letreiramento e colorização, ou ter alguém pra fazer isso no lugar do desenhista.

Além do contato com o desenhista, o roteirista tem que estar ligado nas notícias do mundo, para entender tendências mercadológicas e artísticas se quiser fazer o personagem ou história funcionarem e serem interessantes para publicação. Só através de muita pesquisa e atenção, o roteirista conseguirá mostrar que sua perspectiva vale a pena ser abraçada e assim fará com que o quadrinho se realize. Não adianta apenas escrever, o roteirista nacional do meio independente tem que saber dirigir sua idéia, ser criador e publicitário dela ao mesmo tempo. Ou seja, a palavra roteiro, ganha uma vastidão semântica.

O desenhista como centro da ação

No entanto, muitas vezes argumentação não adianta e os desenhistas recusam sua oferta. É por isso que ele desponta, no quadrinho nacional, como o centro da ação na produção de muitos bons trabalhos. Sabemos que seu trabalho é mais desgastante, fisicamente, do que o ato de pesquisar e escrever, mas creio que com a configuração atual do papel do roteirista, se torna difícil explicitar quem trabalha mais, se roteirista ou desenhista.

Ainda assim, sem o desenhista não se chega a lugar algum. Muitas vezes o roteirista pode ficar esquecido, mas o responsável pela arte não.

Conclusões

Creio que estes entraves na produção exigem do roteirista um planejamento maior das suas ações e do projeto que desenvolverá. Como fazer um quadrinho exige um tempo de preparação grande, é melhor ter sua idéia refinada ao máximo, para que haja o mínimo de imperfeições e perda de tempo e material criativo.

Esse texto é apenas o começo de um esboço dos meus pensamentos enquanto roteirista. Contribuam discutindo e opinando no blog.

Abraços.

5 respostas para O roteirista do meio independente nacional

  1. yoshi disse:

    Sei das dificuldades de fazer HQS no Brasil sou desenhista mangaka,tenho um projeto próprio e tenho muitas dificuldades de divulgação roteiros e arte final ,a importancia de um roteirista não se pode com certeza se negar e também concordar que uma”estória” num projeto de hqs é cinquenta porcento para roteirista quanto para desenhista.

  2. Sávio Roz disse:

    Seu texto explana muitas verdades na condição de roteirista de quadrinhos no Brasil. Claro que quando falamos dessa mídia, falamos de aceitabilidade do público (qualquer que seja o público alvo) e de rentabilidade do produto. Acredito que aqui no Brasil, por seu peculiar histórico, o roteirista de quadrinhos enfrente uma labuta demasiadamente grande. Espero que contatos diversos possam ajudar os caminhos de tantos desenhistas e roteirista e que venhamos a encontrar o “lugar ao sol” um dia.
    Na minha opinião esse dia chegará quando o mercado for definido e quando conseguirmos produzir mais do que somente repetição de material estrangeiro.
    Sucesso!

  3. Igor Mello disse:

    Nossa, passo exatamente pelo mesmo problema. Sou iniciante nesse meio, não tenho contatos e todos esses problemas que afetam quem começa… Estou tentando caçar alguém pra desenhar algum roteiro meu há algum tempo, mas tá difícil.

    Um problema que noto é que o desenhista brasileiro é tecnicista e pragmático demais. Encara o desenho como trabalho e fonte de renda, simplesmente. Esquece que quadrinhos são uma forma de arte, o que só os faz mais explorados por aí. Perdem a oportunidade de participar de uma obra relevante porque não vão ganhar uns tostões a mais. O que você acha que nós, (pretensos, no meu caso) quadrinistas brasileiros podemos fazer pra mudar isso? Penso que criar grupos de produção, como os coletivos que fazem cinema e ect, seja uma boa idéia…

  4. Alexandre José quirino disse:

    Concordo plenamente com você, também passo pela mesma cosia, sou roteirista e até hoje não consegui umdesenhista sequer para dividir meus projetos. na minha opnião, nem mesmo os próprios desenhistas brasileiros acreditam no que é produzido de original em nosso pais e preferem seguir desenhando cópias do que há lá fora. Forte abraço e continue tentando.

  5. Rafael Santos disse:

    sou desenhista iniciante…em forma de dizer..pois ainda ñ atuei profissionalmente…faço freelances…
    sou eclético em estilos…gosto de realismo,mangá e roteiros…

    caso se enteresse pela procura me encontrará no msn katsurow_@hotmail.com ou jno orkut atraves de scrap e e-mail com mesmo acima…

    MGS de testo para 021-8583-1582

    grande abraço.

    Rafael Santos…

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