Semeando Lucas da Feira I – Conversa com Jairo Cedraz e Clóvis Ramaiana

Lucas da Feira – nem bandido, nem herói

Como dito num post passado, inicio agora o diário de bordo sobre as reflexões na construção do quadrinho Lucas da Feira. Eu e Marcos Franco demos os primeiros passos na coleta de informações sobre a história do “demônio negro”. Na verdade, foram os meus primeiros passos, uma vez que Marcos pesquisa há mais de 10 anos sobre o assunto.

Conversamos com o arquiteto Jairo Cedraz e o professor universitário Clóvis Ramaiana. Ambos foram bastante atenciosos e nos esclareceram pontos importantes relacionados à razão de Lucas ser, ao mesmo tempo, presente e deslocado na cultura feirense. Falo agora sobre as reflexões construídas naquele dia.

Lucas viveu no século XIX, contemporâneo dos imperadores D.Pedro I e II. O poder político no Brasil era concedido pelo Imperador às câmaras de vereadores locais, e estes recebiam-no como um privilégio pessoal e não como poder público (de fato, não havia uma assistência pública). Os coronéis compravam suas patentes e obtinham cargos “públicos” que beneficiavam apenas a si mesmos. Portanto, a diferença social nesta época era corroborada pela transferência de poder político (além do racismo). Assim, havia homens extremamente poderosos e uma grande maioria de pessoas desamparadas.

Estes homens poderosos ficavam impunes em crimes que cometessem contra a população não-privilegiada. Estupros, extorsões e assassinatos eram praticados com o aval, tácito e silencioso, do Imperador. As roupas que vestiam, trazidas da Europa, emolduravam seus ares de superioridade e caminhavam como deuses que podem tomar o que desejar, assim que quisessem.

A população desprestigiada, além de sofrer os males diretos por parte de alguns desses homens, era desprezada em situações graves como nas primeiras investidas de Lucas. As pessoas sofriam, mas como era gente qualquer, não existia maneira de reivindicar investimento do Império para caça de Lucas.

Lucas entendeu como se comportava sua sociedade e meio político e tirou proveito disso para alcançar uma condição de vida melhor que a dos negros da sua época.

Como explicado acima, os crimes contra a maior parte da população da Vila de Feira de Santana e região circundante passavam impunes porque não eram dirigidas às autoridades políticas. Lucas nunca afrontou um homem de privilégios, por temer uma represália financiada pelo poder imperial.

Há rumores que dizem que Lucas utilizava elementos do vestuário do homem branco, como camisas de algodão, sapatos de couro e chapéu. A apropriação desses itens de representação social por Lucas transferia a imponência, vista no branco, para o homem negro.

As ações “fora-da-lei” de Lucas se igualavam às ações “dentro-da-lei” dos homens de prestígio – estupro, assassinato e extorsões, como eu disse acima. Há pessoas que criticam essa “resposta social”, pois acusam Lucas de abusar da violência física com pessoas inocentes – relatos dos crimes de Lucas revelam agressões cruéis como apregamento de lábios. No entanto, não devemos esquecer que para um “fora-da-lei” a demonstração de violência tem função pedagógica, ensina com quem não se deve mexer. Assim, ele fazia o que o homem branco e poderoso fazia.

Para garantir sua longa carreira como criminoso[1], Lucas ajudava um número de pessoas do povo, em troca de informações e outros tipos de favores. Assim, mesmo sendo odiado pelo povo, tinha seus representantes na Vila, que o avisavam das necessidades de se proteger ou compravam artigos de necessidade, como alimentos.

É notável a organização que Lucas desenvolveu ao seu redor. Ele usou o banditismo como meio de vida e expressão de indignação social numa sociedade que não considerava o negro como homem e perdoava os diversos atos cruéis dos brancos. Mesmo sem haver provas que nos levem a pensar que ele agiu a favor dos negros, sua aquisição de poder lhe confere status de rebeldia e inspiração para os escravos que desejam livrar-se de sua condição.

É notável a organização que Lucas desenvolveu ao seu redor. Ele usou o banditismo como meio de vida e expressão de indignação social numa sociedade que não considerava o negro como homem e perdoava os diversos atos cruéis dos brancos. Mesmo sem haver provas que nos levem a pensar que ele agiu a favor dos negros, sua aquisição de poder lhe confere status de rebeldia e inspiração para os escravos que desejam livrar-se de sua condição.

Acredito que o personagem deve ser retomado, por sua associação simbólica com a cidade de Feira de Santana, seus moradores de hoje e a desintegração da identidade local da cidade. Nos anos 60 e 70 isso foi feito, a faceta rebelde de Lucas foi articulada por cordelistas que resistiam poeticamente às opressões da ditadura. Agora, pretendo, juntamente com Marcos, resgatar para um público maior, feirense, uma história importante na construção do imaginário da cidade – que anda cada vez menos inteligível.

Veja imagens e mais artigos sobre Feira de Santana e Lucas da feira nos links:

https://roteirizandohq.wordpress.com/2009/03/01/o-que-voce-sabe-sobre-lucas-da-feira/

https://roteirizandohq.wordpress.com/2009/02/10/recontando-feira-de-santana-em-quadrinhos/

https://roteirizandohq.wordpress.com/2009/02/17/manu-chao-lucas-da-feira-cultura-lgbt-e-gerundio-novidades-pre-carnaval/

https://roteirizandohq.wordpress.com/2009/02/03/2009-e-os-quadrinhos/

https://roteirizandohq.wordpress.com/2009/01/09/terradeluca/


[1] Os documentos indicam cerca de dez anos de atividade criminosa. Naquela época, seria comum a própria população matá-lo numa emboscada, tão logo que cometesse seus primeiros crimes.

2 respostas para Semeando Lucas da Feira I – Conversa com Jairo Cedraz e Clóvis Ramaiana

  1. Maycon disse:

    Ler esse texto aqui só não é melhor que escutá-lo, após umas biritas, falar sobre o tal Lucas da Feira. Você nos diz sem a presunção de um grande conhecedor, mas com uma curiosidade tão genuína que se torna um narrador mais-que-envolvente das suas diabruras. Um beijo grande e boa sorte na pesquisa. Aguardo ansiosamente suas próximas descobertas e reflexões acerca dessa figura no mínimo enigmática.

  2. […] Uma das riquezas desse material é a reconstituição da época em que Lucas viveu. Naquela época muitas cidades tinham nomes diferentes como Ipirá que se chamava Vila de Santana do Camisão; na maneira de falar predominava um regionalismo vocabular bastante acentuado e distante da fala cotidiana praticada pelos feirenes. Preservamos, ainda com alguma força, o sotaque daquela época. Também a dissertação apontava para a visão histórica da criminalidade e dos poderes público e privado daquela época, como foi discutido com o professor Clóvis Ramaiana e reportado em post anterior. […]

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