O processo criativo de uma reportagem em quadrinhos

21/04/2009

Como postado abaixo, o quadrinho da Marcha da Maconha surgiu dentro de uma revista universitária. Para sua criação, alguns metódos de jornalismo em quadrinhos foram pesquisados. O processo de criação da HQ será apresentado no Intercom – XI Congresso de Ciências da Comunicação na Região Nordeste, nos dias 14 a 16 de maio. Segue abaixo o resumo e link para leitura do artigo resultado da pesquisa em jornalismo e quadrinhos.

RESUMO
A reportagem em quadrinhos A Marcha da Maconha é o relato da experiência de dois jornalistas presentes no evento dae manifestação. A marcha foi proibida, mas houve protestos em prol da democracia. Os repórteres entrevistaram os militantes, além de registrarem os momentos através de fotos. Através desse material, transcriaram a reportagem para os quadrinhos, mostrando que a simbiose entre jornalismo e a nona arte é possível: não se perde o cunho informativo jornalístico, nem a artisticidade dos quadrinhos. Essa junção funcionou como atrativo para leitores, e permitiu uma exploração sensível das personagens e fatos envolvidos nas situações narradas.
PALAVRAS-CHAVE: Jornalismo, história em quadrinhos, marcha da maconha, jornalismo em quadrinhos, jornalismo cultural.

Leia artigo na íntegra AQUI!


Marcha da Maconha em Quadrinhos

18/04/2009

No dia 04 de maio de 2008 fui para a Marcha da Maconha de Salvador com a repórter Hortência Nepomuceno. A Marcha não aconteceu, pois estava proibida, mas isso não evitou que manifestantes aparecessem para reinvidicar seus direitos à livre expressão. A polícia, no entanto, estava presente e bem preparada para fazer valer as decisões judiciais. O que seguiu foi transformado em quadrinhos desenhados por Fabiano Gummo e publicados na Revista Fraude 6.

A revista pode ser acessada, para leitura online, no link: http://issuu.com/revistafraude/docs/fraude_6 ou pode ser adquirida através do email: marcelocaterpillar@gmail.com

Para ir direto para a HQ, acesse AQUI.

Para baixar a HQ: Rapidshare


Quem é o melhor personagem da Saga Brilho de um Pulsar?

16/04/2009

Aproveitando a deixa do último post, lanço a enquete para saber qual é melhor personagem do arco. Votem!


Turma da Mônica Jovem 8 conclui o arco Brilho de um Pulsar

14/04/2009

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Desde a crítica sobre a primeira parte da saga Brilho de um Pulsar venho admirado com a qualidade das histórias. De enredos fracos e reiterativos sobre o crescimento dos personagens, as HQs da Turma da Mônica Jovem passaram a retratar personagens que realmente se parecem adolescentes e diferentes de suas versões infantis. Dos antigos personagens os que mais tiveram atenção foram Franja e Mônica, sobre os quais falarei.

Franja e a violência

Franja esteve dividido entre sua devoção por uma figura do Astronauta e a aceitação dele da maneira como se apresentava no dia-a-dia: um homem austero, violento e distante. Esse dilema gerou diversos bons diálogos, sobre violência e usos da ciência e nesse número o conflito termina de maneira que não esperava. O Franja dá uma lição de inteligência para o Astronauta, ao analisar conceitos de gravitação, e percebe que a violência é importante para se manter a paz e para se defender. HQs que tocam nesse tipo de discussão criando uma dicotomia inteligência (paz) X violência (guerra) esquecem que na verdade esses conceitos andam de mãos dadas. Isso foi bem demonstrado em TMJ 8.

A violência, por sinal, foi elemento constante nessa saga. Pelo menos por três vezes Mônica foi eletrocutada, para se ter um exemplo. Esse enfoque nas agressões físicas foi privilegiado por desenhos muito bons. Ao contrário de TMJ 2, 3 e 4, quando aconteceram aventuras nada violentas, essas últimas edições souberam referenciar melhor as cenas de ação dos animes e mangás. Além dos inimigos estarem mais detalhados e imponentes (é só lembrar que a turma já enfrentou porquinhos fofos em TMJ 2), há mais linhas de movimento nas cenas, melhor uso do preto para dar profundidade ao quadro, maior expressividade facial dos personagens (basta olhar Mimi e Mônica, nas páginas 35 e 52, lembrando o lunático Fei de Xenogears), presença de onomatopéias ocupando dinamicamente os quadros, densidade dos cenários e até mesmo uso de requadros partindo de pontos grotescos desses ambientes (ver página 11). Enfim, as doses de violência e  de ação estão muito boas.

Exemplo de onomatopéia ocupando espaço dos quadros

Exemplo de onomatopéia ocupando espaço dos quadros

Mônica e a maturidade

Já a Mônica se transformou em outra Mônica. Talvez a única semelhança dela com a personagem infantil seja sua persistência em resolver seus objetivos, porque somos apresentados a uma garota que largou muitos de seus hábitos infantis e amadureceu rapidamente para questões adultas. Apesar de algumas inseguranças, Mônica revela ser ciente de sua sensualidade – e sabe como usá-la muito bem (ver página 120) – tem determinações bem construídas em sua personalidade, sabe ponderar diante de escolhas difíceis e aconselhar os amigos. Dessa maneira, conquistou o amor e admiração de Cebola, que ao invés de planejar com Cascão alguma estripulia contra a amiga, fica impotente ao vê-la tão corajosa diante das situações que enfrenta. Creio que TMJ 8 coroa a transição de amadurecimento que começou em TMJ 1, de maneira que agora a Mônica é praticamente uma adulta (compare a Mônica da capa dessa edição, acima, com a da segunda edição… Parece que mais alguns anos se passaram entre uma turma e outra).

E a maturidade se encontra em outros personagens, principalmente nos antagonistas. Ao contrário do Poeira Negra – ops, Capitão Feio – os vilões não eram absolutamente maus, pelo contrário, tinham razões bem concretas para suas lutas. Esses motivos foram explorados pelas perspectivas da Turma e dos próprios vilões, o que possibilita que se compreenda tanto as motivações de Mimi quanto de Mônica durante o confronto das duas. Creio que uma pesquisa de popularidade dos personagens mostraria isso muito bem. Até mesmo o aterrador Lorde Kamen possui um momento para lutar e cessa de usar a violência logo que cumpre seu objetivo. Creio que esse arco é uma prova de que as histórias poderiam ter sido maduros desde o começo – uma das maiores críticas que fiz – e continuar agradando os fãs. Os jovens não são tolos e bons moços, muito pelo contrário.

Lorde Kamen, em um dos desenhos mais belos da HQ

Lorde Kamen, em um dos desenhos mais belos da HQ

Uma boa aposta

Marcelo Cassaro foi uma ótima escolha da Maurício de Sousa Editora. A ele parece ter sido dado muita liberdade para escrever a HQ, pois nota-se a evolução dos personagens. Um outro motivo foi o gênero da história, a ficção científica, no qual Cassaro é mestre, sabendo dar toques certeiros de desenvolvimento de personalidade e da necessidade ação na HQ.

A aposta em Cassaro e na maturidade dos personagens foi bem acertada. Não quero assim dizer que as características adultas dos personagens sejam superiores sobre as infantis, mas são elementos essenciais para marcar algum tipo de diferença entre a turminha original e essa turma jovem. A violência mais realista também, uma vez que traz agora a responsabilidade por cada ato de agressão que os jovens cometam.

TMJ 8 fecha um ciclo onde os personagens da turminha encarnam praticamente todas as idéias reveladas por Maurício em algumas entrevistas. E que o retorno às histórias do dia-a-dia mantenham o nível!

Choques e mais choques marcaram a passagem da turminha para um mundo mais adulto e violento

Choques e mais choques marcaram a passagem da turminha para um mundo mais adulto e violento

P.S.: veio um card como brinde da edição, mas muito provavelmente não jogarei o card game da TMJ. Se alguém o fizer, comenta sobre como ele é. Me pareceu bem pobre em termos de regras.


Edital Cultura LGBT tem resultado adiado

01/04/2009

Recebi o seguinte email da Fundação Pedro Calmon:

“Prezado proponente,

Finalizamos a primeira etapa do processo seletivo (HABILITAÇÃO), aonde verificamos toda a documentação pertinente à inscrição do projeto, abrindo um prazo de 05 dias úteis para o diligenciamento de eventuais pendências documentais. A segunda etapa (SELEÇÃO) já foi iniciada, aonde os projetos estão sendo avaliados por uma comissão temática e externa, composta por 03 integrantes de reconhecida atuação no segmento de cultura LGBT, levando-se em conta os critérios estabelecidos no anexo IV do edital.
Possivelmente o resultado final da seleção deverá sair no mês de maio, salvo solicitação de prorrogação desse prazo mediante prévia justificativa devidamente fundamentada, conforme previsto no edital.

Atenciosamente,

Sesnando Melo
(Equipe de Editais da FPC)”

O jeito é esperar o resultado, que deveria ter saído dia primeiro de março…

Leia sobre o Projeto Quarto ao Lado, inscrito no Edital Cultura LGBT: https://roteirizandohq.wordpress.com/2009/02/17/manu-chao-lucas-da-feira-cultura-lgbt-e-gerundio-novidades-pre-carnaval/


Bahia é berço de quadrinistas

01/04/2009

A Bahia, especialmente Salvador, sempre teve bens culturais e artistas elogiados no Brasil e no exterior. É o caso dos tropicalistas, do João Gilberto precursor da Bossa Nova, do cineasta Glauber Rocha, pra citar alguns famosos. Para além da música e do cinema, também há expoentes no teatro, na literatura e na dança.

Menos reconhecido pelo público baiano, os quadrinistas do estado vêm conseguindo destaque com publicações de circulação nacional. Como muitos dos artistas baianos de sucesso, alguns deles reverenciam as raízes baianas em seu trabalho.

antonio-cedraz

Antonio Cedraz é um desenhista veterano ganhador do Trófeu HQ Mix, uma espécie de Oscar dos quadrinhos nacionais, e é um dos poucos quadrinistas baianos que possui estúdio próprio e funcionários.

Apesar de ter tido experiências com diferentes publicações e personagens, é o seu personagem Xaxado, publicado em tirinhas e livros, que têm lhe proporcionado maior sucesso no Brasil e premiações. “”Xaxado pertencia a uma turminha de uma revista que eu fazia há muito tempo. Quando o Jornal A Tarde me pediu um personagem para o caderno Notícias, eu me lembrei dele e comecei a fazer a história acontecendo no Nordeste. Aí que ele começou a ter receptividade”, conta o autor.

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As tirinhas do Xaxado sempre trazem temáticas ligadas ao cotidiano do sertanejo e traduzem a motivação do autor em retratar o cotidiano do sertão baiano. “Queria um personagem que fosse brasileiro. Como sou nordestino, quis valorizar a cultura daqui e contar histórias que aconteceram comigo, quando morava no interior”, afirma Cedraz, que utiliza suas memórias como principal fonte de inspiração para as histórias do personagem.

flavio-luiz

Outro autor baiano que investe em histórias em quadrinhos que tem a Bahia como cenário é Flávio Luiz. O cartunista e quadrinista também possui troféus HQ Mix em sua estante, além de premiações por seus cartuns. No dia 7 de outubro ele lançou em Salvador o álbum Aú, o Capoeirista, que narra as aventuras de um corajoso capoeirista no Pelourinho. No entanto, Flávio Luiz se preocupa mais em criar uma boa história do que falar de temas regionais. Como ele diz, “essa coisa de falar do traço baiano, do desenho baiano e do quadrinho baiano é uma preocupação menor diante de apresentar um trabalho que seja feito com profissionalismo. É desnecessário querer sempre enaltecer o nosso lugar de origem”. Para manter a qualidade e a inspiração, Flávio faz pesquisas detalhadas de cenários e personagens. Atualmente, Flávio está em turnê nacional com o álbum do personagem Aú.

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Segundo Caó Cruz Alvez, cartunista e animador baiano, há um “lado universal da Bahia, que todos conhecem” e que ele coloca em seus trabalhos. Ele se refere a elementos como o Farol da Barra e a estátua de Castro Alves, que ele manipula em seus filmes de animação e cartuns para provocar humor. Caó foi o primeiro baiano a lançar um livro com quadrinhos, uma coletânea de tirinhas do seu personagem, O Porco com Cauda de Pavão, que era publicadas desde 1978. “Naquela época existia muita censura, sobretudo política. Depois de criar vários personagens que tiveram suas carreiras interrompidas pelo editor, me veio a idéia de criar um personagem meio bizarro, surrealista e que ninguém entendia, mas cheio de crítica a ditadura da época”, conta. As tirinhas de Caó fizeram muito sucesso e ele recebeu convites para publicá-las na França. Recentemente, o autor tem transposto as histórias em quadrinhos realizadas nos anos 70 e 80 para animação, preservando muitas nuances da linguagem quadrinista.

Wilton Bernardo, quadrinista baiano criador da Oficina HQ, crê que existe uma liberdade criativa muito forte tanto na Bahia quanto no Brasil. “Quando pensamos no mercado de quadrinhos do Japão, conseguimos imaginar as possibilidades estilísticas, digamos assim. Se pensamos em Brasil podemos até pensar que não existe um estilo tão expressivo, já que não temos uma linha tão unificadora, mas ao mesmo tempo, se prestarmos atenção aos nossos artistas, veremos tanta coisa diferente. Temos muitos talentos que fazem produções autorais”, comenta quando perguntando sobre os criadores locais. Wilton disse ter um projeto que envolve suas raízes baianas e que pretende lançar logo que possível.

marcos-franco

Um veterano fanzineiro baiano, Marcos Franco, criou uma personagem bastante conhecida nos meios independentes dos quadrinhos: a super-heroína Penitência. Ela é natural de Cachoeira onde, quando era humana, enfrentava os latifundiários nos fins do século XIX. Após ser assassinada, retornou à vida como uma entidade mística para combater injustiças em solo baiano. O autor revela suas influências: “Eu sempre me inspiro e trabalho retratando aspectos do contexto político, histórico, geográfico, religioso e cultural do nosso país. Como sou baiano as influências do estado se tornam ainda mais evidentes”.

Assim como existem os autores que se aproximam de suas raízes, há os quadrinistas baianos que lutam por sua arte sem sair da Bahia, mas que não referenciam o estado nos quadrinhos feitos.

naara-nascimento

Naara Nascimento, estudante da Escola de Belas Artes da UFBa, declara “Não me prendo muito ao lugar que me cerca. Nunca pensei em nenhuma referência regional”. Contrariando ainda mais o processo criativo da maioria dos autores baianos, ela diz que não costuma planejar roteiros ou quantificar as referências pesquisadas. “”A partir do tema eu começo a pensar sobre o que posso fazer. Depois, vou treinando o desenho até me aproximar da idéia que tive”. Naara tem seu trabalho em quadrinhos publicado na revista paulista Subversos e terá quadrinhos na revista Front.

antonio-dinaron

Mais distante ainda de possíveis temas e de estilo regionais está o quadrinista feirense Antonio Jesus da Silva. Ele é um dos fundadores do Studio Fúria, que já tem dois títulos lançados de forma independente, e já viajou pra fora da Bahia para vender as revistas. Para Antonio, o mais importante em seus quadrinhos é ater-se “a aspectos humanos como as dúvidas e os desejos sentidos”, mesmo nos contextos das histórias de fantasia que ele cria, desenhados em estilo mangá.

Embora os quadrinhos baianos não sejam de uma tradição artística que possa ser definida, os autores baianos são cada vez mais respeitados pelo seu trabalho, principalmente fora da Bahia. Talvez, como os Doces Bárbaros, estes quadrinistas e outros que virão possam “preparar a invasão” da sétima arte baiana nos corações brasileiros.

P.S.: O presente texto não tem a pretensão de abordar todos os autores baianos, nem fatos e acontecimentos em ordem cronológica. Pedimos desculpas aos mestres não entrevistados.

Para saber mais sobre os quadrinistas baianos, acessar os links:

http://www.projetocontinuum.com/2008/11/feras-da-hq-baiana-parte-1.html

http://www.projetocontinuum.com/2008/11/feras-da-hq-baiana-parte-2.html