Che – Os últimos dias de um herói mostra um mito sem tempo

20/06/2009

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Che é um mito sem tempo. Embora historicamente situado – anos 60 – a figura do guerrilheiro se incorpora no cotidiano de militantes, políticos e posers do século XXI. No cinema e nos quadrinhos surgiram duas boas oportunidades de consumo da personagem: os filmes estrelados por Benicio Del Toro e a história em quadrinhos Che – Os últimos dias de um herói (Editora Conrad), do roteirista Héctor Oesterheld juntamente com os desenhistas Alberto e Enrique Breccia.

A perspectiva do quadrinho é fazer, como o título deixa claro, um retrato mítico do guerrilheiro. Acompanhando alguns trechos de sua vida na infância e nas guerras, mostras de sensibilidade e coragem fora do comum são articuladas por um texto poético e arte que mistura fotografias e colagens de ilustrações.

O livro é dividido em sete capítulos: Bolívia, Ernestito, O Porco, O Che, Sierra Maestra, Yuro e La Higuera.

Bolívia introduz aspectos poéticos, como o uso econômico de textos e de imagens numa síntese narrativa bastante poderosa e envolvente. Ao contar dos obstáculos enfrentados pela guerrilha que Che iniciou na Bolívia, Oesterheld escreve linhas que tentam falar diretamente à essência emocional dos acontecimentos, como está demonstrado no quadro três da página abaixo. Os Breccia, como Oesterheld, destacam de um fundo branco um quadro de bastante força expressiva.

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Neste capítulo também é notável a alternância de enquadramentos utilizada pelos Breccia. Os artistas recorrem a panorâmicas entremeadas por closes nos guerrilheiros ou nos antagonistas, sempre retratados com uma expressividade exagerada, e também se valem de repetição de uma mesma imagem em diferentes escalas de plano.

Em Ernestito, há um aprofundamento no lirismo dos textos, talvez porque se trata da fase infantil de Che. Neste capítulo, Oesterheld faz um exercício de fluxo de consciência, confundindo as passagens de narrador com os pensamentos de Che. Os recordatórios parecem versos de García Lorca: “A serra é azul e feliz. O brilho da mica, o sangue de verbena na pedra, o vento forte que embriaga. Riacho e rocha, diálogo cristalino”.

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Ainda aqui se percebe uso de fundos brancos. Em contraste com o preto da figura, os fundos brancos garantem a sensação de profundidade de campo.

A narrativa sempre entrecortada com os fatos iniciados no primeiro capítulo sempre deixa à vista que estamos caminhando para a morte do guerrilheiro – isso se estenderá até o final do álbum.

O capítulo O Porco apresenta os momentos e cenas formadores do espírito de Che. Aqui, texto e imagem aparecem numa equivalência de espaço difícil de ver nos quadrinhos. Sem o uso do requadro, o texto e a imagem estão no mesmo espaço e a visibilidade destes dois elementos é disputada. Texto e imagem são tão ricos que se tornam igualmente chamativos. Abaixo uma imagem da página 27, representante da estrutura típica das páginas deste capítulo e a página 31, com uma mudança na escala de plano para o Splash Page.

Página 27
Página 27
Página 31
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O Che tem uma estrutura bastante similar a do capítulo anterior. Nesta parte do enredo é realizada uma visão panorâmica da América Latina que demonstra as mazelas e como Che atua contra elas. A partir daqui é apresentado mais ferrenhamente a visão de Che enquanto mito. Ele é destemido face às injustiças sociais, mesmo enfraquecido pela asma. Fragilizada, mas sempre poderoso.

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O capítulo mais longo e mais importante, Sierra Maestra, pinta a revolução como campo de batalha onde os defensores de Cuba eram homens valorosos, e dentre eles, Che foi sempre o maior bastião cubano. De simples soldado Che vira comandante e organiza, além das guerrilhas, hospitais, escolas e jornais.

O fluxo de consciência na escrita se torna quase inexistente a partir desse capítulo. O texto sai do campo da formação de personalidade e passa a exaltar Che como uma figura altaneira. O fundo branco é abandonado pelo fundo preto que dá mais densidade às cenas, que envolvem momentos de risco da guerrilha. Muitos quadros trazem os documentos da época, como mapas e cartas, para dar verossimilhança ao momento histórico.

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Em Yuro e La Higuera são mostrados os últimos momentos de Che. A arte utiliza o escuro como elemento predominante nas ilustrações, que se tornam austeras e emblemáticas. Até o último momento Che se mantém firme em suas convicções e escolhe morrer em pé, com a fronte erguida, do que deitado como alguém que desistiu da batalha.  Algumas das melhores ilustrações de rostos estão nesse capítulo, havendo até mesmo experimentação com cartum nas expressões faciais. Os smileys, criados em 1963, são incorporados em expressivas ilustrações de rostos colombianos.

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É sabido que Che – Os últimos dias de um herói foi muito importante de três maneiras: para a Argentina dos anos 60, porque representou uma obra de resistência às ditaduras e em amor à América Latina (o que rendeu o assassinato de Oesterheld e recolhimento dos exemplares); é a primeira história escrita sobre Che (foi lançada três meses após sua morte, em 1968); e devido à vanguarda da simbiose texto/imagem e das técnicas empregadas em cada um deles – estilo que seria reapropriado apenas no meio dos anos 70 pela revista Métal Hurlant.

O aspecto mítico endossado na personagem, principal característica da obra, se torna bem sucedido através do lirismo bem dosado. Essa dimensão mitológica e emocional torna Che – Os últimos dias de um herói uma obra ainda sem igual sobre a vida daquele que é “do povo, efetivamente, e se recuperou entregando-se a ele”, nas palavras do ensaísta Martínez Estrada.

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Che é um mito sem tempo. Embora historicamente situado – anos 60 – a figura do guerrilheiro se incorpora no cotidiano de militantes, políticos e posers do século XXI. No cinema e nos quadrinhos surgiram duas boas oportunidades de consumo da personagem: os filmes estrelados por Benicio Del Toro e a história em quadrinhos Che – Os últimos dias de um herói (Editora Conrad), do roteirista Héctor Oesterheld juntamente com os desenhistas Alberto e Enrique Breccia.

A perspectiva do quadrinho é fazer, como o título deixa claro, um retrato mítico do guerrilheiro. Acompanhando alguns trechos de sua vida na infância e nas guerras, mostras de sensibilidade e coragem fora do comum são articuladas por um texto poético e arte que mistura fotografias e colagens de ilustrações.

O livro é dividido em sete capítulos: Bolívia, Ernestito, O Porco, O Che, Sierra Maestra, Yuro e La Higuera.

Bolívia introduz aspectos poéticos, como o uso econômico de textos e de imagens numa síntese narrativa bastante poderosa e envolvente. Ao contar dos obstáculos enfrentados pela guerrilha que Che iniciou na Bolívia, Oesterheld escreve linhas que tentam falar diretamente à essência emocional dos acontecimentos, como está demonstrado no quadro três da página abaixo. Os Breccia, como Oesterheld, destacam de um fundo branco um quadro de bastante força espiritual.

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Neste capítulo também é notável a alternância de enquadramentos utilizada pelos Breccia. Os artistas recorrem a panorâmicas entremeadas por closes nos guerrilheiros ou nos antagonistas, sempre retratados com uma expressividade exagerada, e também se valem de repetição de uma mesma imagem em diferentes escalas de plano.

Em Ernestito, há um aprofundamento no lirismo dos textos, talvez porque se trata da fase infantil de Che. Neste capítulo, Oesterheld faz um exercício de fluxo de consciência, confundindo as passagens de narrador com os pensamentos de Che. Os recordatórios parecem versos de García Lorca: “A serra é azul e feliz. O brilho da mica, o sangue de verbena na pedra, o vento forte que embriaga. Riacho e rocha, diálogo cristalino”.

[digitalizar0018]

Ainda aqui se percebe uso de fundos brancos. Em contraste com o preto da figura, os fundos brancos garantem a sensação de profundidade de campo.

A narrativa sempre entrecortada com os fatos iniciados no primeiro capítulo sempre deixa à vista que estamos caminhando para a morte do guerrilheiro – isso se estenderá até o final do álbum.

O capítulo O Porcosplash Page. apresenta os momentos e cenas formadores do espírito de Che. Aqui, texto e imagem aparecem numa equivalência de espaço difícil de ver nos quadrinhos. Sem o uso do requadro, o texto e a imagem estão no mesmo espaço e a visibilidade destes dois elementos é disputada. Texto e imagem são tão ricos que se tornam igualmente chamativos. Abaixo uma imagem da página 27, representante da estrutura típica das páginas deste capítulo e a página 31, com uma mudança na escala de plano para o

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O Che tem uma estrutura bastante similar a do capítulo anterior. Nesta parte do enredo é realizada uma visão panorâmica da América Latina que demonstra as mazelas e como Che atua contra elas. A partir daqui é apresentado mais ferrenhamente a visão de Che enquanto mito. Ele é destemido face às injustiças sociais, mesmo enfraquecido pela asma. Fragilizada, mas sempre poderoso.

[digitalizar0038]

O capítulo mais longo e mais importante, Sierra Maestra, pinta a revolução como campo de batalha onde os defensores de Cuba eram homens valorosos, e dentre eles, Che foi sempre o maior bastião cubano. De simples soldado Che vira comandante e organiza, além das guerrilhas, hospitais, escolas e jornais.

O fluxo de consciência na escrita se torna quase inexistente a partir desse capítulo. O texto sai do campo da formação de personalidade e passa a exaltar Che como uma figura altaneira. O fundo branco é abandonado pelo fundo preto que dá mais densidade às cenas, que envolvem momentos de risco da guerrilha. Muitos quadros trazem os documentos da época, como mapas e cartas, para dar verossimilhança ao momento histórico.

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Em Yuro e La Higuera são mostrados os últimos momentos de Che. A arte utiliza o escuro como elemento predominante nas ilustrações, que se tornam austeras e emblemáticas. Até o último momento Che se mantém firme em suas convicções e escolhe morrer em pé, com a fronte erguida, do que deitado como alguém que desistiu da batalha. Algumas das melhores ilustrações de rostos estão nesse capítulo, havendo até mesmo experimentação com cartum nas expressões faciais. Como se explica, nos anos 60, o uso de ‘smileys’?

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É sabido que Che foi muito importante de três maneiras: para a Argentina dos anos 60, porque representou uma obra de resistência às ditaduras e em amor à América Latina (o que rendeu o assassinato de Oesterheld e recolhimento dos exemplares); é a primeira história escrita sobre Che (foi lançada três meses após sua morte, em 1968); e devido à vanguarda da simbiose texto/imagem e das técnicas empregadas em cada um deles – estilo que seria reapropriado apenas no meio dos anos 70 pela revista Métal Hurlant.

O aspecto mítico endossado na personagem, principal característica da obra, se torna bem sucedido através do lirismo bem dosado. Essa dimensão mitológica e emocional torna Che – Os últimos dias de um herói uma obra ainda sem igual sobre a vida daquele que é “do povo, efetivamente, e se recuperou entregando-se a ele”, nas palavras do ensaísta Martínez Estrada.

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Conheça as revistas do Studio Furia

16/06/2009

Em Feira de Santana, minha cidade natal, Anton Dinarom e seu Studio Fúria têm publicado revistas em quadrinhos sobre fantasia medieval, anjos e demônios e até mesmo histórias locais. O Studio ainda está no começo, mas pode crescer bastante. Compre e apoie.

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Hq Independente Bahia

14/06/2009

No sábado estive no Shopping Iguatemi Salvador para a reunião do grupo HQ Independente Bahia.

O grupo é formado por quadrinhistas iniciantes e experientes, com o objetivo de se apoiarem na publicação, distribuição e divulgação dos seus trabalhos. Uma espécie de Quarto Mundo, mas que operará, por enquanto, apenas na Bahia.

Atualmente, estamos fechando idéias em torno de uma edição independente que sairá, muito provavelmente, em agosto desse ano. Contribuirei com duas hqs, “A grande metamorfose” e “Por onde andam os Super-Modernosos?”, das quais falarei em próximos posts. Por enquanto não posso dar mais detalhes, fiquem com as imagens do encontro.

Sou aquele black power de braços cruzados

Sou aquele black power de braços cruzados

A foto oficial da reunião. Estavam presentes (não está na ordem): Marcos Franco, Valmar Oliveira, Haeckel Almeida , Rodrigo Vinícius, Marcelo Lima, Lucas Pimenta, V.B. Felipe, David Barreto, Fabrício Campos, Jefferson Santos, Ulisses Almeida,

A foto oficial da reunião. Estavam presentes (não está na ordem): Marcos Franco, Valmar Oliveira, Haeckel Almeida , Rodrigo Vinícius, Marcelo Lima, Lucas Pimenta, V.B. Felipe, David Barreto, Fabrício Campos, Jefferson Santos, Ulisses Almeida,

Discussões sérias

Discussões sérias

Pra quem quiser saber mais, cliquem nos links abaixo.

Fórum de debates da HQ Independente Bahia: http://br.groups.yahoo.com/group/hqindependentebahia/

Fotolog do grupo: http://fotolog.terra.com.br/hqindependenteba:1

Nossa comunidade no Orkut: http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=90049877


Mônica vence enquete sobre quem foi a melhor personagem do arco Brilho de um Pulsar

11/06/2009

Em 16 de abril eu lancei a enquete “Quem é o melhor personagem da Saga Brilho de um Pulsar?”. Encerrei hoje as votações e vocês vêem os resultados abaixo. Não nego que torcia pra Usagi Mimi ¬¬

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História da Penitência coloca em xeque sua relação com Equilíbrio

09/06/2009

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Como definir o Equilíbrio? Se houvesse um ser que representasse esse conceito, seria possível ele assumir uma forma sem afetar o equilíbrio próprio do mundo? Estas são questões levantadas na história Paradoxo, escrita por mim e desenhada por Alex Classwar, e protagonizada pela personagem Penitência, de Marcos Franco.

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As aventuras da Penitência exploram limites entre o Caos e a Ordem, uma vez que a “heroína” serve a uma desconhecida força chamada Equilíbrio, que rege o Universo através da harmonia e da parcimônia. Para manter essa balança de forma neutra, Penitência atua punindo àqueles que provocam o Caos ou a Ordem.

Em Paradoxo, Penitência escuta o lamento de uma mulher. Embora não faça parte dos planos de Equilíbrio ajudá-la, Penitência acaba comovida com seu pranto e conhece sua aflição: um dos seus três filhos desapareceu misteriosamente. E esta é apenas a ponta do iceberg: a gravidez da moça se deu de maneira excepcional. As três crianças nasceram ao mesmo tempo, mas cada uma com um rosto diferente, similares aos três homens que estupraram a mulher, quando ela ainda era virgem. Desde então, a mulher tem vivido assombrada pela sua estranha casa e pelos seus filhos.

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O paradoxo está no sentimento humanista da Penitência, contraditório com a ausência de forças positivas e negativas pregada pelo Equilíbrio. Para ela é inaceitável o sofrimento daquela mulher, no entanto, se deseja continuar sua “vida” como Penitência, deve aceitar e se apegar à sua missão.

Qual será a decisão da Penitência?

A HQ encontra-se, atualmente, na fase de desenhos. Nesse post estão os esboços de Alex Classwar. Logo o quadrinho estará pronto. Aguardem!

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