Prévia do álbum “Lucas da Vila de Sant’Anna da Feira” + Pré-Lançamento no ABERTO CUCA 2010

13/09/2010

Pré-lançamento do álbum “Lucas da Vila de Sant’Anna da Feira” dia 17/09 (próxima sexta), durante o Aberto 2010 do CUCA (Centro Universitário de Cultura e Arte), a partir das 08h até as 23h!

A HQ “Lucas da Vila de Sant’Anna da Feira” recria a história de Lucas da Feira, uma das maiores figuras históricas da cidade de Feira de Santana e região circunvizinha. Você ler uma prévia da história aqui: http://issuu.com/roteirizandohq/docs/lucasdafeirahq

O coquetel oficial de lançamento será no dia 24/09, a partir das 19h, no Museu de Arte Contemporânea de Feira de Santana, juntamente com o lançamento da  Revista Área 71, contando com show do Bando Farinha de Guerra.
Para obter mais informações:
Contamos com a sua presença!

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Una-se ao Bando de Lucas da Feira

04/09/2010

Lugar aonde nasci
Eu vou prêso pra Bahia
Levo saudades de ti,
Sabendo que vou morrer,
Talvês eu não volte aqui!
Trecho do ABC de Lucas

Projeto Lucas da Feira em Quadrinhos está em sua reta final!

O bando responsável pela quadrinização de uma das figuras negras mais importantes da Bahia – e por consequência do Brasil – o convida para acompanhar o final dessa aventura de perto. Para isso, siga o Twitter do projeto: @olucasdafeira e também junte-se a comunidade do Orkut: http://www.orkut.com.br/Main#Community?cmm=105338431 Assim, você acompanhará os passos derradeiros de Lucas da Vila de Sant’Anna da Feira para saber sobre as datas de lançamento, promoções e vendas da HQ.

Se ainda não conhece o projeto, para matar sua curiosidade seguem a sinopse, biografia dos autores e os comentários dos primeiros (e prestigiados) leitores da obra que é patrocinada pelo Banco do Nordeste/Ministério da Cultura através do Edital de Microprojetos Culturais. O álbum terá pré-lançamento em Feira de Santana no dia 17/09, durante o Aberto 2010 do CUCA e coquetel oficial de lançamento dia 24/09, no MAC – Feira de Santana, juntamente com o lançamento da Revista Área 71, contando com show do Bando Farinha de Guerra. Fiquem atentos!

Sinopse

Quem foi Lucas da Feira? Até hoje não existem dados precisos que detalhem quem foi o negro que se rebelou contra a sociedade escravocrata em que viveu. Sabe-se que atuou nos arredores da atual cidade de Feira de Santana, nos começos do século XIX, atacando tropeiros que iam ou vinham da Feira do Gado. Alguns dizem que fazia isso para depois repartir com outros negros e pobres, outros afirmam que nunca passou de um psicopata desumano. Longe de responder a essas questões, a obra Lucas da Vila de Sant’Anna da Feira busca dialogar com diversas fontes, oficiais ou não, para mostrar uma história possível da personagem, suas motivações e assim reapresentar esse mito histórico brasileiro para os leitores do século XXI.

Breves críticas

“…nesta obra nos é apresentado um ilustre “desconhecido” da História do Brasil, e não por isso menos importante” José Salles, Professor de História, roteirista de quadrinhos e editor da Júpiter II

“É com orgulho que se aprecia uma HQ onde, a cada quadro, se percebe o prazer com que se quis contar a história de Lucas da Feira, através de narrativa ágil e detalhada, junto a uma arte bela e envolvente” Gustavo Machado, desenhista de quadrinhos.

“Adorei ‘Lucas da Vila de Sant’Anna da Feira’(…), bela celebração à escrita e delicioso antídoto contra essa memória amnésica de que grande parte de nós é feita.” Júlio Emílio Braz, escritor de literatura infanto-juvenil e roteirista de quadrinhos.

“ …é uma criativa obra que resgata parte da memória do nosso País e que agrada, não só pelo belo visual artístico, como também pelo seu conteúdo histórico!” Elmano Silva (Mano), quadrinhista, artista plástico, teatrólogo e poeta.

” …cavalheiros da novíssima geração de quadrinhistas brasileiros com o estufo ideal para narrar parte da intensa aventura que foi a vida de Lucas da Feira.” Sebastião Seabra, Mestre do Quadrinho Nacional

“Além de prestar homenagem aos mitos e artes populares, o cordel, as trovas e aboios, os autores manejam bem a arte dos quadrinhos, (…) compondo na mente do leitor um filme ilustrado, com ares de épico”. Spacca, quadrinhista.

” …narrativa comovente da vida de um homem destemido e sensível que decidiu fugir da atávica escravidão para viver sua liberdade, mesmo que turbulenta, por longos vinte anos”. Júlio Shimamoto, Mestre do Quadrinho Nacional.

“A polêmica trajetória do lendário escravo Lucas de Feira, misto de herói e salteador, ressurge em pleno século XXI, no traço vigoroso de Hélcio Rogério, e no roteiro denso e embasado”. Carlos Ribeiro, escritor e professor da UFRB.

Autores
Hélcio Rogério (ilustração) –
Nasceu em 1973, na cidade de Feira de Santana, Bahia. Trabalha como ilustrador e arte-finalista para revistas, jornais e agências publicitárias. Autodidata, iniciou sua carreira como ilustrador de quadrinhos em 1998, participando da revista independente Brazuca Comics, publicada pelo Museu de Arte Contemporânea de Feira de Santana. Desde então tem colaborado em jornais locais e diversas revista
nacionais a exemplo da Impacto, Lorde Kramus, Billy the Kid, Tianinha e Área 71. Dono de um traço forte e dinâmico, possui como principais influências os desenhistas Mozart Couto, Rodval Matias, Julio Shimamoto, John Buscema e Frank Miller. helciorogerio@gmail.com

Marcos Franco (pesquisa e roteiro) –
Nasceu em Feira de Santana, em 1975, e atualmente reside em Cachoeira, onde estuda Museologia na Universidade Federal do Recôncavo Baiano. Atua como roteirista de Quadrinhos desde 1994, tendo trabalhos publicados em revistas como Turma do Xaxado, Impacto, Boca do Inferno, Projeto Continium, Tempestade Cerebral e Área 71. Também participou de diversos fanzines brasileiros, da Expofanzines – Mostra Internacional de Fanzines de Ourense, na Espanha – e foi vencedor do 2° Concurso Nacional de Roteiros, promovido pelo HQ Festival Sergipe de Quadrinhos. Sempre foi amante de quadrinhos nacionais e cultura popular nordestina, tendo como influências os roteiristas brasileiros Rubens Francisco Lucchetti, Júlio Emílio Braz, Elmano Silva, Ataíde Braz e Gian Danton. marcosfranco@ymail.com

Marcelo Lima
(pesquisa e roteiro) Nascido a 1989 na cidade de Sant’Anna. Conclui a graduação em jornalismo e pesquisa histórias em quadrinhos jornalísticas pelo Instituto de Letras da UFBa. Foi um dos vencedores da 10ª Feira HQ do Piauí, na categoria Roteiro, e premiado no Intercom Nordeste do Piauí pela HQ “Marcha da Maconha em Quadrinhos”. É roteirista da HQ “Kuei e a Senhora de Sárvar”, em parceria com Joel Santos, e editor da revista baiana “Área 71”. Ainda não sabe quais influências têm, mas
ama a ideia de misturar quadrinhos e cultura nordestina, suas duas grandes paixões. Gosta do interior e adora a capital, vivendo em um eterno trânsito de corpo e espírito. marcelocaterpillar@gmail.com


História da Penitência coloca em xeque sua relação com Equilíbrio

09/06/2009

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Como definir o Equilíbrio? Se houvesse um ser que representasse esse conceito, seria possível ele assumir uma forma sem afetar o equilíbrio próprio do mundo? Estas são questões levantadas na história Paradoxo, escrita por mim e desenhada por Alex Classwar, e protagonizada pela personagem Penitência, de Marcos Franco.

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As aventuras da Penitência exploram limites entre o Caos e a Ordem, uma vez que a “heroína” serve a uma desconhecida força chamada Equilíbrio, que rege o Universo através da harmonia e da parcimônia. Para manter essa balança de forma neutra, Penitência atua punindo àqueles que provocam o Caos ou a Ordem.

Em Paradoxo, Penitência escuta o lamento de uma mulher. Embora não faça parte dos planos de Equilíbrio ajudá-la, Penitência acaba comovida com seu pranto e conhece sua aflição: um dos seus três filhos desapareceu misteriosamente. E esta é apenas a ponta do iceberg: a gravidez da moça se deu de maneira excepcional. As três crianças nasceram ao mesmo tempo, mas cada uma com um rosto diferente, similares aos três homens que estupraram a mulher, quando ela ainda era virgem. Desde então, a mulher tem vivido assombrada pela sua estranha casa e pelos seus filhos.

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O paradoxo está no sentimento humanista da Penitência, contraditório com a ausência de forças positivas e negativas pregada pelo Equilíbrio. Para ela é inaceitável o sofrimento daquela mulher, no entanto, se deseja continuar sua “vida” como Penitência, deve aceitar e se apegar à sua missão.

Qual será a decisão da Penitência?

A HQ encontra-se, atualmente, na fase de desenhos. Nesse post estão os esboços de Alex Classwar. Logo o quadrinho estará pronto. Aguardem!

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Bahia é berço de quadrinistas

01/04/2009

A Bahia, especialmente Salvador, sempre teve bens culturais e artistas elogiados no Brasil e no exterior. É o caso dos tropicalistas, do João Gilberto precursor da Bossa Nova, do cineasta Glauber Rocha, pra citar alguns famosos. Para além da música e do cinema, também há expoentes no teatro, na literatura e na dança.

Menos reconhecido pelo público baiano, os quadrinistas do estado vêm conseguindo destaque com publicações de circulação nacional. Como muitos dos artistas baianos de sucesso, alguns deles reverenciam as raízes baianas em seu trabalho.

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Antonio Cedraz é um desenhista veterano ganhador do Trófeu HQ Mix, uma espécie de Oscar dos quadrinhos nacionais, e é um dos poucos quadrinistas baianos que possui estúdio próprio e funcionários.

Apesar de ter tido experiências com diferentes publicações e personagens, é o seu personagem Xaxado, publicado em tirinhas e livros, que têm lhe proporcionado maior sucesso no Brasil e premiações. “”Xaxado pertencia a uma turminha de uma revista que eu fazia há muito tempo. Quando o Jornal A Tarde me pediu um personagem para o caderno Notícias, eu me lembrei dele e comecei a fazer a história acontecendo no Nordeste. Aí que ele começou a ter receptividade”, conta o autor.

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As tirinhas do Xaxado sempre trazem temáticas ligadas ao cotidiano do sertanejo e traduzem a motivação do autor em retratar o cotidiano do sertão baiano. “Queria um personagem que fosse brasileiro. Como sou nordestino, quis valorizar a cultura daqui e contar histórias que aconteceram comigo, quando morava no interior”, afirma Cedraz, que utiliza suas memórias como principal fonte de inspiração para as histórias do personagem.

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Outro autor baiano que investe em histórias em quadrinhos que tem a Bahia como cenário é Flávio Luiz. O cartunista e quadrinista também possui troféus HQ Mix em sua estante, além de premiações por seus cartuns. No dia 7 de outubro ele lançou em Salvador o álbum Aú, o Capoeirista, que narra as aventuras de um corajoso capoeirista no Pelourinho. No entanto, Flávio Luiz se preocupa mais em criar uma boa história do que falar de temas regionais. Como ele diz, “essa coisa de falar do traço baiano, do desenho baiano e do quadrinho baiano é uma preocupação menor diante de apresentar um trabalho que seja feito com profissionalismo. É desnecessário querer sempre enaltecer o nosso lugar de origem”. Para manter a qualidade e a inspiração, Flávio faz pesquisas detalhadas de cenários e personagens. Atualmente, Flávio está em turnê nacional com o álbum do personagem Aú.

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Segundo Caó Cruz Alvez, cartunista e animador baiano, há um “lado universal da Bahia, que todos conhecem” e que ele coloca em seus trabalhos. Ele se refere a elementos como o Farol da Barra e a estátua de Castro Alves, que ele manipula em seus filmes de animação e cartuns para provocar humor. Caó foi o primeiro baiano a lançar um livro com quadrinhos, uma coletânea de tirinhas do seu personagem, O Porco com Cauda de Pavão, que era publicadas desde 1978. “Naquela época existia muita censura, sobretudo política. Depois de criar vários personagens que tiveram suas carreiras interrompidas pelo editor, me veio a idéia de criar um personagem meio bizarro, surrealista e que ninguém entendia, mas cheio de crítica a ditadura da época”, conta. As tirinhas de Caó fizeram muito sucesso e ele recebeu convites para publicá-las na França. Recentemente, o autor tem transposto as histórias em quadrinhos realizadas nos anos 70 e 80 para animação, preservando muitas nuances da linguagem quadrinista.

Wilton Bernardo, quadrinista baiano criador da Oficina HQ, crê que existe uma liberdade criativa muito forte tanto na Bahia quanto no Brasil. “Quando pensamos no mercado de quadrinhos do Japão, conseguimos imaginar as possibilidades estilísticas, digamos assim. Se pensamos em Brasil podemos até pensar que não existe um estilo tão expressivo, já que não temos uma linha tão unificadora, mas ao mesmo tempo, se prestarmos atenção aos nossos artistas, veremos tanta coisa diferente. Temos muitos talentos que fazem produções autorais”, comenta quando perguntando sobre os criadores locais. Wilton disse ter um projeto que envolve suas raízes baianas e que pretende lançar logo que possível.

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Um veterano fanzineiro baiano, Marcos Franco, criou uma personagem bastante conhecida nos meios independentes dos quadrinhos: a super-heroína Penitência. Ela é natural de Cachoeira onde, quando era humana, enfrentava os latifundiários nos fins do século XIX. Após ser assassinada, retornou à vida como uma entidade mística para combater injustiças em solo baiano. O autor revela suas influências: “Eu sempre me inspiro e trabalho retratando aspectos do contexto político, histórico, geográfico, religioso e cultural do nosso país. Como sou baiano as influências do estado se tornam ainda mais evidentes”.

Assim como existem os autores que se aproximam de suas raízes, há os quadrinistas baianos que lutam por sua arte sem sair da Bahia, mas que não referenciam o estado nos quadrinhos feitos.

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Naara Nascimento, estudante da Escola de Belas Artes da UFBa, declara “Não me prendo muito ao lugar que me cerca. Nunca pensei em nenhuma referência regional”. Contrariando ainda mais o processo criativo da maioria dos autores baianos, ela diz que não costuma planejar roteiros ou quantificar as referências pesquisadas. “”A partir do tema eu começo a pensar sobre o que posso fazer. Depois, vou treinando o desenho até me aproximar da idéia que tive”. Naara tem seu trabalho em quadrinhos publicado na revista paulista Subversos e terá quadrinhos na revista Front.

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Mais distante ainda de possíveis temas e de estilo regionais está o quadrinista feirense Antonio Jesus da Silva. Ele é um dos fundadores do Studio Fúria, que já tem dois títulos lançados de forma independente, e já viajou pra fora da Bahia para vender as revistas. Para Antonio, o mais importante em seus quadrinhos é ater-se “a aspectos humanos como as dúvidas e os desejos sentidos”, mesmo nos contextos das histórias de fantasia que ele cria, desenhados em estilo mangá.

Embora os quadrinhos baianos não sejam de uma tradição artística que possa ser definida, os autores baianos são cada vez mais respeitados pelo seu trabalho, principalmente fora da Bahia. Talvez, como os Doces Bárbaros, estes quadrinistas e outros que virão possam “preparar a invasão” da sétima arte baiana nos corações brasileiros.

P.S.: O presente texto não tem a pretensão de abordar todos os autores baianos, nem fatos e acontecimentos em ordem cronológica. Pedimos desculpas aos mestres não entrevistados.

Para saber mais sobre os quadrinistas baianos, acessar os links:

http://www.projetocontinuum.com/2008/11/feras-da-hq-baiana-parte-1.html

http://www.projetocontinuum.com/2008/11/feras-da-hq-baiana-parte-2.html


Recontando Feira de Santana em quadrinhos

10/02/2009

Mercado Municipal, hoje Mercado de Arte Popular

Mercado Municipal, hoje Mercado de Arte Popular

Toda cidade possui sua coleção de mistérios, segredos e histórias. Desde os mitos fundacionais, àqueles mais ligados a localidades específicas dentro da cidade. Algumas cidades possuem, em seu estado de ser, maior força de demonstrar o quanto foi forjada por suas histórias acontecimentos – não são muitas as cidades que conseguem. A grande maioria delas emana uma fraca aura de existência, parecendo apenas um cenário pré-fabricado para a vivência humanam como conhecemos – anti-local, globalizada e urbana.

Feira de Santana deixou de viver sua própria vida aos poucos. Mesmo sendo a segunda maior cidade da Bahia em termos de economia e população, deve estar entre as últimas em condição de espírito. Como todas as cidades, Feira acomoda histórias incríveis, mas a grande maioria delas são mistérios realmente secretos, quase mortos.

Desfile comemorativo ao Centenário de Feira de Santana

Desfile comemorativo ao Centenário de Feira de Santana

Quantos moradores de Feira conhecem a lenda do Bicho do Tomba? E os significados do mural da rodoviária, uma metáfora anti-ditadura? Além do nome de Lucas da Feira, o que mais os feirenses sabem sobre ele e seu bando? Ruy Barbosa foi professor em Feira de Santana, numa época gloriosa em que até mesmo o filósofo Sartre a visitava. Dizer que se morava nessa cidade era sinal de distinção, pois as damas e cavalheiros de Feira de Santana eram associados à alta cultura e bom gosto.

Novamente indago, quantos feirenses sabem disso? As raízes de Feira de Santana são bastante renegadas nas escolas, pela população e pela mídia local. O Museu Casa do Sertão não é um chamariz popular, o Centro de Abastecimento não toma as ruas como as antigas feiras e o vaqueiro, um dos símbolos da cidade, mal é visto no noticiário local, a não ser quando próximo de eventos ligados à criação e exposição de gado.

Creio que a razão da História feirense ter perdido seu valor é o fato da cidade ter passado transformações cada vez mais impactantes no seu desenvolvimento rumo à sua atual plenitude como potência comercial baiana. Novos “mitos” surgiram, como o Feiraguai, mas a transição entre a Feira que foi até o fim dos anos 80 para a Feira dos últimos quinze anos foi bastante brusca e traumática para o espírito da cidade. Prédios históricos foram demolidos e os outros não farão falta para a maioria dos moradores da cidade. Todos conhecem os personagens das novelas, as músicas do TOP 10 da rádio e os livros best-sellers, mas não possuem acesso fácil a produções locais.

Baile na Sociedade 25 de Março

Baile na Sociedade 25 de Março

Para aprender o que sei sobre a cidade, tive de desbravar a cidade: procurar acadêmicos da área de História, visitar todos os museus da cidade, pesquisar na Internet, fuçar sebos, abordar desconhecidos nas ruas. Tudo isso para escavar uma ponta da trama que acompanha a cidade desde seu nascimento.

Pretendo contribuir com minha cidade natal contando as histórias que sei delas. Falar sobre o medo que corria as veias das donzelas ao imaginar o hálito quente do Bicho do Tomba; sobre o comunista autodidata e poliglota que habita o bairro Kalilândia e que fugiu da morte na ditadura; sobre o argentino pintor a caminhar e resmungar pelas ruas de Feira de Santana, que esconde uma inteligência rara e pouquíssima preconceituosa; das filarmônicas orgulhosas e ávidas por vencer a disputa do gosto popular e, claro, sobre o homem-mita que carrega a cidade no nome: Lucas da Feira.

Antiga feira livre na praça João Pedreira

Antiga feira livre na praça João Pedreira

Eu e Marcos Franco – um grande, porém desconhecido, artista de Feira de Santana – estamos escrevendo a biografia de Lucas da Feira em quadrinhos. Esperamos concluir o roteiro até o fim de 2009, para procurar patrocínio para sua impressão. Se tudo der certo, em 2010 estaremos retornando à Feira de Santana uma história já contada e recontada através do cordel, mas através de quadrinhos. Lutamos para que seja algo novo e surpreendente para a população da cidade, e que essa surpresa os leve a uma catarse que os una em sinergia com a cidade que os circunda. O espírito de Feira de Santana precisa rejuvenescer.

Fonte das Imagens: http://www.radionordestefm.com.br/imgs/jacobina/01.jpg


Semeando a “Terra de Lucas”

09/01/2009

Comecei a ler hoje o material que o amigo conterrâneo e quadrinista Marcos Franco me passou sobre Lucas da Feira. Ele é criador dos personagens Penitência e Redentor, além de outros, publicados em zines e revistas de todo o Brasil.

Há algum tempo o Marcos queria realizar o projeto de contar a história de Lucas da Feira, ladrão que atuou nas proximidades da cidade de Feira de Santana no século XIX. O personagem é muito importante para a cidade porque é visto, paradoxalmente, como  símbolo da resistência negra e culpado do atraso comercial que a cidade sofria – afinal, Lucas, o “Demônio Negro”, aterrorizava as rotas da cidade, famosa por ser um entrocamento rodoviário importante para todo o país.

O mais importante é que um sem número de lendas interessantes giram em torno da figura de Lucas e do seu bando. Com tantas coisas bacanas, entendo o porquê de Marcos não resistir a figura do ex-escravo e manter o projeto por anos na cabeça.

Em conversa ontem, dia 9 de janeiro, percebemos várias sacadas – a maioria de Marcos – para serem utilizadas num roteiro de HQ. Selamos a parceria e esperamos que ainda esse ano esteja fechado o roteiro da história.

Voltarei a falar sobre o assunto aqui.

Por enquanto, deixo um trecho do Cordel “Prisão e Morte de Lucas da Feira”, de Jurivaldo Alves da Silva e Patrícia Oliveira da Silva:

“O Demônio da Senzala
Com vinte anos de idade
Fugitivo e perseguido
Só queria liberdade
Pra sobreviver entrou
Na vil criminalidade

Integrou-se à um bando
De forasteiros temidos
E reuniu alguns negros
Que eram escravos fugidos
Construiu logo um Quilombo
Onde estavam protegidos

Assaltavam as famílias
Rodeadas de riqueza
Entre os homens do seu grupo
Não exisitia moleza
Quando repartia os roubos
Lucas não tinha avareza.

Preocupados com os roubos
Que Lucas cometia
Os senhores das fazendas
Com um ódio que explodia
Resolveram por um fim
Contra aquela tirania.”

E pra quem quiser ler sobre a vida de Lucas, acessar: http://www.feiradesantanna.com.br/lucas.htm

P.S.: “Terra de Lucas” fará parte do título da obra