Semeando Lucas da Feira II – Conversa com Marialvo Barreto

08/05/2009

Quadro de Lucas

Quadro de Lucas

Dei uma parada nas postagens sobre Lucas da Feira, mas isso não quer dizer que o projeto está parado. Longe disso, eu e Marcos avançamos mais um tanto – e foi um tanto bem significativo.

No mês de abril conversamos com mais um conhecedor da história de Lucas da Feira, dessa vez o professor e vereador Marialvo Barreto. Estivemos em sua casa numa noite poucos dias antes da sexta-feira santa e fomos recebidos agradavelmente com café e torradas. Logo, passados os momentos iniciais de apresentação, eu e Marcos vimos o que procurávamos: a dissertação de Mestrado Lucas Evangelista: o Lucas da Feira. Um estudo sobre a rebeldia escrava em Feira de Santana, da professora Zélia Lima. Como o professor possuía apenas uma cópia, nós a folheamos o máximo que pudemos.

Uma das riquezas desse material é a reconstituição da época em que Lucas viveu. Naquela época muitas cidades tinham nomes diferentes como Ipirá que se chamava Vila de Santana do Camisão; na maneira de falar predominava um regionalismo vocabular bastante acentuado e distante da fala cotidiana praticada pelos feirenes. Preservamos, ainda com alguma força, o sotaque daquela época. Também a dissertação apontava para a visão histórica da criminalidade e dos poderes público e privado daquela época, como foi discutido com o professor Clóvis Ramaiana e reportado em post anterior.

A conversa foi bastante importante por reforçar a necessidade de apresentar traços materiais no desenho de Lucas que reportassem seu poder e, ao mesmo tempo, sua submissão a uma sociedade  racista. Assim, é cada vez mais importante mostrar como ele se apropria dos símbolos de seus donos para conseguir sua liberdade – da vestimenta aos hábitos alimentares.

O professor Marialvo colocou uma questão polêmica: Lucas poderia ter executado diversos crimes contra o povo por mando dos coronéis e dirigentes do poder da época. Assim, era mantido livro da cadeia e enriquecia os poderosos. Visão que não é compartilhada pelo professor Clóvis, que nos disse que não conhece nenhuma história de um bandido-arquivo que tenha permanecido vivo por tanto tempo na cadeia como aconteceu com Lucas a partir do momento em que foi preso. Ainda não sabemos como iremos representar, se realmente for representado, uma possível relação de cumplicidade entre Lucas e os poderosos de sua época.

Após as importantes discussões desse dia, que terminaram recaindo sobre a geografia de Feira e região, eu e Marcos começamos a escrever o roteiro do quadrinho e estamos na página 30. Postarei alguns excertos no próximo post.

P.S: Muito obrigado Marialvo, assim como Clóvis, Jairo e todas as pessoas que estão viabilizando a criação desse álbum.

https://roteirizandohq.wordpress.com/2009/03/01/o-que-voce-sabe-sobre-lucas-da-feira/

https://roteirizandohq.wordpress.com/2009/02/10/recontando-feira-de-santana-em-quadrinhos/

https://roteirizandohq.wordpress.com/2009/02/17/manu-chao-lucas-da-feira-cultura-lgbt-e-gerundio-novidades-pre-carnaval/

https://roteirizandohq.wordpress.com/2009/02/03/2009-e-os-quadrinhos/

https://roteirizandohq.wordpress.com/2009/01/09/terradeluca/

https://roteirizandohq.wordpress.com/2009/03/21/semeando-lucas-da-feira-i/

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Semeando a “Terra de Lucas”

09/01/2009

Comecei a ler hoje o material que o amigo conterrâneo e quadrinista Marcos Franco me passou sobre Lucas da Feira. Ele é criador dos personagens Penitência e Redentor, além de outros, publicados em zines e revistas de todo o Brasil.

Há algum tempo o Marcos queria realizar o projeto de contar a história de Lucas da Feira, ladrão que atuou nas proximidades da cidade de Feira de Santana no século XIX. O personagem é muito importante para a cidade porque é visto, paradoxalmente, como  símbolo da resistência negra e culpado do atraso comercial que a cidade sofria – afinal, Lucas, o “Demônio Negro”, aterrorizava as rotas da cidade, famosa por ser um entrocamento rodoviário importante para todo o país.

O mais importante é que um sem número de lendas interessantes giram em torno da figura de Lucas e do seu bando. Com tantas coisas bacanas, entendo o porquê de Marcos não resistir a figura do ex-escravo e manter o projeto por anos na cabeça.

Em conversa ontem, dia 9 de janeiro, percebemos várias sacadas – a maioria de Marcos – para serem utilizadas num roteiro de HQ. Selamos a parceria e esperamos que ainda esse ano esteja fechado o roteiro da história.

Voltarei a falar sobre o assunto aqui.

Por enquanto, deixo um trecho do Cordel “Prisão e Morte de Lucas da Feira”, de Jurivaldo Alves da Silva e Patrícia Oliveira da Silva:

“O Demônio da Senzala
Com vinte anos de idade
Fugitivo e perseguido
Só queria liberdade
Pra sobreviver entrou
Na vil criminalidade

Integrou-se à um bando
De forasteiros temidos
E reuniu alguns negros
Que eram escravos fugidos
Construiu logo um Quilombo
Onde estavam protegidos

Assaltavam as famílias
Rodeadas de riqueza
Entre os homens do seu grupo
Não exisitia moleza
Quando repartia os roubos
Lucas não tinha avareza.

Preocupados com os roubos
Que Lucas cometia
Os senhores das fazendas
Com um ódio que explodia
Resolveram por um fim
Contra aquela tirania.”

E pra quem quiser ler sobre a vida de Lucas, acessar: http://www.feiradesantanna.com.br/lucas.htm

P.S.: “Terra de Lucas” fará parte do título da obra