O Roteirizando HQ está de volta!

18/09/2009

Estou retornando às postagens do blog a partir de hoje. Passei algum tempo produzindo material referente a HQs (tanto roteiros, quanto pesquisa acadêmica e coordenação de eventos), discutindo com profissionais da área (nem sempre de maneira pacífica) e me reunindo com o pessoal da HQ Independente Bahia. Estou cheio de novidades para ir postando por aqui.

A partir de domingo volto a colocar as críticas a HQs, dessa vez incluindo produções baianas. As críticas da Turma da Mônica Jovem serão disponibilizadas numa página diferente, pois não darei prosseguimento a elas. Também postarei os artigos acadêmicos produzidos nesse ínterim: um sobre a personagem Wanda, do Sandman, e outro sobre Katchoo e Francine, de Estranhos no Paraíso.

Bem, por fim, trago uma boa notícia.

Lá pelos primeiros posts desse blog eu profetizei um 2009 como o ano dos quadrinhos para mim. Foi um auspício certeiro. Uma das principais ideias surgidas em janeiro, a saber a HQ do vampiro Kuei, logo se converterá em álbum impresso para bancas e livrarias. A partir de domingo, trarei mais detalhes acerca desse assunto.

Abraços a todos os leitores deste blog.

Anúncios

Forma versus conteúdo: um improvável confronto entre Literatura e Quadrinhos

06/02/2009

há distinção entre texto (supostamente o conteúdo) e imagem (supostamente a forma)?

Quadrinhos: há distinção entre texto (supostamente o conteúdo) e imagem (supostamente a forma)?

Sandman foi aclamado como um quadrinho para intelectuais e Neil Gaiman, seu criador, elogiado por suas capacidades literárias. Os elogiadores esquecem que quadrinhos não são um subgênero literário como o romance ou o conto. O quadrinho é uma arte autônoma – até onde se é possível separar uma arte da outra nos tempos atuais.

Analisando a nomeação do Sandman como “ascendente às esferas literárias”, parto para a divisão vista nos quadrinhos: texto e imagem. Os textos de Gaiman são ditos literários e capazes de uma narração surpreendente. As imagens, menos comentadas que os textos, são tidas por muitos dos críticos da obra como responsáveis pelo clima de terror. A inserção do texto de Gaiman no paradigma do “bem escrito” e do “bom contador de histórias” opõe-se aos desenhos que operam apenas para complementar o conteúdo das histórias. Servem apenas para dar forma ao escrito por Gaiman.

Nesse sentido, os críticos têm se resguardado à tradicional visão de que repousa na Literatura o dom de narrar boas histórias. Transpondo-se aos quadrinhos, esse conceito conforma a crença de que no roteiro (literário) residiria o conteúdo narrativo, enquanto que nos desenhos, estaria a forma que apresenta o conteúdo. Uma idéia bastante frágil, mas que ainda domina a maneira como os quadrinhos são encarados e que cria um conflito binário bizarro entre forma (como sendo os quadrinhos) x conteúdo (representado pelo roteiro dos quadrinhos, mas tendo sua representação máxima, neste caso específico, na Literatura).

A divisão em forma e conteúdo vem sofrendo críticas há muito tempo, dos formalistas russos aos teóricos da formatividade da arte. É cada vez mais concordante, entre os acadêmicos, que muitas vezes o suposto conteúdo da mensagem só significa algo a depender da maneira como a forma o modula. Em Sandman, não importa apenas a descrição alto-astral que Gaiman faz da Morte, como também cada acessório que reveste seu corpo e a maneira como arruma os cabelos. A Morte se porta como uma cantora gótica dos anos 80, mas com um lado punk bastante vívido, informações não contidas em seus textos de descrição pela HQ, mas que se configuram também como conteúdo. Nesse aspecto, não se pode esquecer que cada recordatório (caixinha de texto) possui diagramação e colorização própria em Sandman, o que dá forma a cada um dos textos escritos.

Portanto, os quadrinhos da série Sandman não devem ser vistos como literários, pois não são puro conteúdo e forma escritas. O desenho é diferente da escrita e possui seus conteúdos e formas. E conteúdo e forma, não importa em qual arte seja, encontram-se miscigenados e imiscíveis. Note, por exemplo, a sensação que temos ao escutar a música como Smells Like Teen Spirit na versão original cantada pelo Nirvana e na versão da inglesa Tori Amos: é apenas a forma que muda, ou os sentimentos que afloram na audição são outros? Creio que conteúdo e forma mudam igualmente.

Por fim, é bom perceber que não é dom exclusivo ou supremo da Literatura o de contar histórias. Quadrinhos, cinema e quaisquer outras artes podem fazer isso com igual competência. O reconhecimento literário da obra Sandman é bastante importante exatamente por validar esta competência narrativa, e só. Quadrinhos e Literatura são artes, por igual, mas que possuem contornos diferentes. Sem oposições, sem necessidade de dicotomias baratas.


2009 e os quadrinhos

03/02/2009

Primeiro mês de blog e apenas três posts. Um começo vergonhoso, mas, contando que tive apenas 400 acessos, não deve ter muita gente pra puxar minhas orelhas.

Janeiro de 2009 foi um dos meses mais importantes até hoje na minha formação para ser roteirista de quadrinhos.

Iniciei a escrita do roteiro da minha parceria vampiresca ao lado de Joe Santos. Abaixo, Mercúrio, informante de Kuei, o vampiro.

mercuriopersonagem-copy

Embarquei nos sonhos guardados de Marcos Franco, preparando-me para retomar um elo com o passado da minha cidade natal, Feira de Santana, e contar, junto a Marcos, uma história oral sobre uma das figuras mais violentas presentes em suas origens.

lucas-da-feira

Estou tendo o prazer de ver em desenvolvimento o conto sobre paradoxos e escolhas da personagem Penitência (criada por Marcos Franco). Este projeto tem roteiro meu e desenhos de Alex Classwar. Abaixo, a versão de Jean Okada para a Penitência.

penitencia

Por fim, ao lado do amigo e produtor cultural Rafael Raña, inscrevemos um projeto para um livro em quadrinhos no Edital Cultura LGBT, da Fundação Cultural do Estado da Bahia. A história no livro se chama O quarto ao lado e é uma história homoafetiva sobre dois amigos, um gay e um hetero, que se envolvem sexualmente. O desenho abaixo é de André Leal e apresenta os dois protagonistas.

rostos_frente

Por fim, há as leituras. Completei minha coleção do Sandman da Conrad e estou relendo todos os livros. É a quarta vez que leio Sandman e a cada leitura ela se torna mais rica . Isso, creio eu, se deva ao cuidado de Gaiman com o subtexto presente na obra: os diálogos e quadros costumam referenciar um universo extenso e em expansão, trazendo à tona a experiência de se perder em meio ao sublime, de imergir. Ler Sandman sempre é meio assustador, porque sempre é muito humano e real. É sobre sonho, melhor, é uma genealogia do ato de sonhar. É sobre como os sonhos podem nos regular e sobre como podemos regulá-los em resposta, e como podemos distribuir camadas de imaginação sobre cada aspecto bruto da nossa experiência de vida. É bom ler Sandman ao som de “La Petite Fille de la Mer” de Vangelis – experiência a mim oferecida indiretamente por uma desconhecida misteriosa e sensível.

E, por fim, teve a grata surpresa de ler Turma da Mônica Jovem #6 e gostar. Mas sobre isso, falarei no próximo post.