Turma da Mônica Jovem 6 dá uma guinada rumo ao espaço e à boa qualidade das histórias

05/02/2009

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Não perco Turma da Mônica Jovem por nada. Algumas pessoas me perguntam “Por que comprar se você não gosta? Pra que dar dinheiro a eles?”. Posso não gostar das histórias e fazer críticas a elas, mas continuarei a comprar porque meu prazer em ler a Turma da Mônica é acompanhar de perto as comunidades de leitores da revista e, me posicionando como leitor de quadrinhos, avaliar a obra, para, discursivamente, dar alguma contribuição para ela.

Confesso que a edição anterior era do tipo que poderia me fazer desistir de continuar colecionando, mas uma novidade me fez voltar atrás: a contratação de Marcelo Cassaro como roteirista. Não é a primeira vez que Cassaro trabalha com Mauricio de Sousa, mas conheço seu trabalho da revista Dragão Brasil, voltada para os RPGs. Cassaro sempre foi uma mente criativa lá dentro, criando o cenário de Tormenta (junto com Rogério Saladino e J.M. Trevisan), o rpg 3D&T e a série de quadrinhos Holy Avenger. Cassaro sempre se demonstrou eficiente em desenvolver cenários, personagens e tramas – habilidades necessárias a um bom mestre de RPG. E isso fica bem claro em Turma da Mônica Jovem#6 – a melhor edição até o momento.

Cassaro muda o foco das aventuras do dia-a-dia, que não deram muito certo, para um terreno que lhe é bastante íntimo, o da ficção científica. Ele faz isso sem esquecer das relações dos personagens, aliás, faz de forma mais interessante e ampla do que vinha acontecendo nas últimas revistas. Claro que o público focado pela revista, 10-14 anos, se agradou pela abordagem bem humorada das personagens e a revista poderia prosseguir assim, porém Cassaro resolveu dar um tom mais sério em algumas passagens, como na briga entre Cebola e Mônica, quando ele a chama de egoísta e ela chora escondida de todos. O roteirista conseguiu realizar uma cena sem excessos, bastante humanizadora e tangível – ele adensou os personagens. Parece o estágio inicial do tipo de enredo que eu gostaria de ver em TMJ, rumando para conversas mais abertas sobre outros temas.

A narrativa de TMJ#6 não parece rápida e meio desorientada como nas edições anteriores, e consegue prender facilmente. A cada quatro nos é apresentado, de forma bastante criativa, alguma novidade exótica sobre a estação interplanetária ou algum elo com o passado da Turma da Mônica original. Mesmo não havendo muito andamento na trama, essa é uma edição sólida em suas perspectivas de tratamento dos personagens e cenários.

Dentre os elementos tecidos por Cassaro, está a inserção de uma figura extraterrestre bastante interessante e a reaparição de mechs (robôs gigantes), que reaproximam o quadrinho dos temas orientais e da forma mangá – por sinal, o mech lembra o Black Kamen Rider e algo do Jaspion. Esses elementos parecem saídos de uma história de mesa de RPG, notória pela presença de monstros, acontecimentos estranhos e muitos eventos rolando nas entrelinhas.

Uma novidade, entre os personagens é a presença de Franja entre os protagonistas. Sua presença em uma aventura espacial é justificada, mas ele está roubando a cena com os bons diálogos com o Astronauta. Eles servem para introduzir elementos de alta tecnologia a trama, sem esquecer do velho papo sobre valores humanos e uso das máquinas. O Astronauta é um personagem interessante, pois se tornou um homem ranzinza e solitário, ao contrário do personagem alegre da Turma original. Assim, vai se quebrando o bom mocismo politicamente correto de TMJ. Para caprichar mais, Cassaro não pode esquecer de dois personagens que estão sendo bem pouco desenvolvidos e são essenciais para a trama: Cascão e Magali.

Cassaro criou uma boa estrutura para explorar nos próximos números, mesmo se utilizando de elementos bem convencionais. Mas não se pode esquecer que Cassaro é um mestre, e sua narrativa sempre vai ser uma aventura bem descrita.

Espero as próximas edições, ansiosamente, como todos das comunidades Turma da Mônica Jovem.

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Turma da Mônica Jovem 5 decepciona ao abordar o cotidiano adolescente

10/01/2009

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Reações positivas ou negativas ante o recente lançamento da Panini Comics, Turma da Mônica Jovem, uma característica era unânime: os Estúdios Maurício de Sousa estavam mais que antenados ao público jovem pré-adolescente. Muitas sacadas interessantes permearam a HQ, do uso de celulares e ringtones à incorporação de gírias e cultura de gueto pela classe média. As quatro primeiras edições foram sucesso de vendas, conseguiram segmentar um novo público e abrir espaço para incursões mais ousadas quanto à juventude, conforme prometido por Mauricio de Sousa.

A quinta edição, lançada esse mês, traz a seguinte chamada na capa: “As aventuras do dia-a-dia”. O mote das aventuras, de agora por diante, se focará nos relacionamentos pessoais dos personagens que habitam a Vila do Limoeiro, mostrando problemas e alegrias típicos que os jovens vivem. Novamente, como falei em outro blog, Mauricio promete e descumpre.

Não sou tão crítico quanto os meus colegas universitários da área de Sociologia quanto a questões de posição social e atos de fala, mas TMJ#5 é história em quadrinhos completamente elitista e distante da realidade da grande maioria dos jovens, principalmente das meninas, mesmo as ricas. Vamos por partes.

Elitismo: Em TMJ#5 é claramente mostrado a importância do dinheiro na vida adolescente. É através da moeda que os garotos podem levar as garotas para ir ao cinema, e elas podem comprar vestidos e jóias. São usos que muitos jovens fazem do seu dinheiro, mas cada um deles possui um nível de consumo diferente e o realiza de diferentes maneiras. É exatamente isso que TMJ#5 se exime de mostrar. Duas cenas são cruciais para se notar isso: quando Mônica e as amigas vão ao shopping e quando Cebola (não é mais Cebolinha, não esqueçam) pede a chave do carro ao pai.

Mônica está com dor de cotovelo porque Cebola foi estudar Inglês com uma garota. Para lhe ajudar a ficar “pra cima”, sua mãe a leva para fazer compras com as amigas. A lógica do consumo, ao chegarem ao Shopping, é gastar, gastar e gastar. Não é mostrado nem o que elas compram, embora se sugere que tenha sido roupas. A relação do jovem com o que compra é simbólica e concreta para demonstrar características intersubjetivas. O jovem que compra por comprar e pensa despreocupadamente “é hoje que o cartão de crédito do papito vai ferver” é um sério candidato a se tornar – se ainda não o é – um consumidor compulsivo.

Cebola pede o carro ao pai, para rodar no “sabadão”. No entanto, o pai nega por ele não possuir idade para dirigir e ainda o pede para lavar o carro. Lavagem feita, o pai de Cebola o entrega uma nota de 20 reais. Cascão e Titi, ao verem a recompensa, resolvem ir atrás dos pais para negociar o mesmo trato. Mesmo não mostrando eles discutindo com os pais, a HQ dá a entender que os pais são complacentes desse tipo de prática. Não há nenhum pai que não possua “vintão” para dar aos filhos por dez minutos de esforço.

Lembro que desde os primeiros números é mostrado o apelo consumista dos personagens, como quando Mônica resolve trocar de Celular porque o seu está com um pequeno defeito – a recepção de som está ruim. Onde estão os jovens que não podem realizar esse tipo de sonho? Aparentemente, a realidade de TMJ é a de jovens mimados que nunca recebem um “não” e possuem rios de dinheiro e nenhuma preocupação proveniente deste tipo de problema.

Sexismo: A HQ faz uma divisão clara entre meninos e meninas. Elas só aparecem entre elas e eles, entre eles. Cada um tem um grupo de atividades bem definido: as meninas vão ao Shopping, ao salão de beleza, compram jóias e falam de meninos. Os meninos vão pra um campo de beisebol secreto, suar e correr, e só falam de jogos e diversão. Os dois grupos só se relacionam para namorar.

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A representação de ambos os sexos presume um tipo bem definido de jovem heterossexual e de classe média alta. Ignora-se o fato das mulheres terem conseguido mostrar, após movimentos feministas, que não são apenas consumidoras passivas, e que não podem ser agrupadas sob o nome “mulher” como se fosse uma identidade precisa sobre a condição de vida de cada individuo feminino.

Não há espaço para que os jovens possam demonstrar desejos sexuais pelo sexo oposto, uma vez que todos os personagens estão compactuados com o modelo heternormativo de relacionamento (ficar, namorar, casar, filhos). A mãe de Mônica diz: “Garotas amam garotos” e todas elas suspiram em acordo. O segundo capítulo da HQ se chama “Os garotos são todos iguais!” e não, não é por ironia. A HQ também é a favor da chamada “ditadura da magreza” ao mostrar jovens felizes com seus corpos: todos são magros e esbeltos e se elogiam por isso.

Acho incrível como a HQ não consegue dialogar com facetas de muitos jovens, como a participação em movimentos sociais, a preocupação com a natureza, o hedonismo sexual. Nesse sentido, a série Malhação da Globo consegue se sair um pouco melhor, mesmo continuando ruim. Desde a primeira edição da revista eu desconfiava que a HQ fosse situar-se exatamente dentro de uma limitada esfera do que se considera a identidade jovem. O público de comunidades do Orkut tachou partes da revista de machista e isso é um bom exemplo do quanto a revista não acertou quanto a estas representações.

Não sou contra uma revista que se proponha uma representação elitizada de um personagem, ou história, mas o que critico aqui é o descompasso entre o que o autor pretende e o que produz. Cadê as histórias sobre temas espinhosos da juventude, que Mauricio prometeu? O que se viu até agora é uma juventude tola, consumista, fútil e politicamente correta – acima de tudo.

Mauricio disse que pode colocar Chico Bento nas histórias se o público pedir por ele. Fico curioso imaginando como ele será colocado nas histórias. Será um filho de fazendeiro riquíssimo que faz musculação e pega todas as meninas do colégio?